O Departamento de Justiça dos Estados Unidos recuou de forma significativa na acusação de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, lideraria o suposto Cartel de Los Soles, alterando o eixo central da denúncia por narcotráfico apresentada contra o mandatário venezuelano. A nova peça acusatória, divulgada após a operação em que Maduro foi sequestrado por forças norte-americanas, deixou de atribuir a ele a chefia direta da organização, tese que havia sido sustentada com ênfase na denúncia original protocolada em 2020, ainda durante o primeiro mandato de Donald Trump.

Na acusação anterior, o termo Cartel de Los Soles aparecia de forma recorrente, sendo citado trinta e três vezes, com descrições detalhadas que apontavam Maduro como líder máximo da suposta estrutura criminosa. “Nicolas Maduro Moros, o réu, ajudou a administrar e, por fim, a liderar o Cartel de Los Soles à medida que ganhava poder na Venezuela”, afirmava o texto daquela denúncia, que serviu de base discursiva para endurecer sanções e ameaças de intervenção contra Caracas.

Já na nova versão apresentada pelo Departamento de Justiça nesta semana, a referência ao Cartel de Los Soles aparece apenas duas vezes e de maneira periférica, sem qualquer menção direta à liderança de Maduro. O foco do documento passa a ser a descrição de um ambiente sistêmico de corrupção envolvendo autoridades venezuelanas, sem caracterizar formalmente a existência de um cartel estruturado. “Nicolas Maduro Moros, o réu – assim como o ex-presidente Chávez antes dele – participa, perpetua e protege uma cultura de corrupção na qual poderosas elites venezuelanas se enriquecem com o tráfico de drogas e a proteção de seus parceiros traficantes”, afirma o novo texto.

Na sequência, a acusação sustenta que os lucros oriundos dessas atividades ilícitas teriam sido apropriados por funcionários corruptos inseridos em uma lógica de clientelismo político. “[Esses funcionários] operam em um sistema de clientelismo administrado por aqueles no topo – referido como o Cartel de Los Soles ou Cartel dos Sóis, uma referência à insígnia do sol afixada nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente”, descreve o documento oficial elaborado em Washington.

A mudança na linguagem chamou atenção de analistas internacionais, sobretudo porque o suposto cartel havia sido classificado como organização terrorista pelo próprio governo Trump. À época, a acusação de que Maduro liderava a entidade foi usada como justificativa retórica para defender uma possível invasão da Venezuela. O recuo atual sinaliza uma reavaliação dessa estratégia, especialmente diante da fragilidade probatória associada ao conceito do cartel.

Não há, por exemplo, qualquer menção ao Cartel de Los Soles nos relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes. O Relatório Anual sobre Ameaças de Drogas da Administração de Combate às Drogas dos Estados Unidos, divulgado em 2025, também não faz referência à suposta organização venezuelana, o que reforça dúvidas sobre sua caracterização como entidade criminosa formal.

Para a consultora sênior da União Europeia para Políticas sobre Drogas na América Latina e Caribe, Gabriela de Luca, a mudança indica um reconhecimento tácito dos limites da acusação original. “Até agora, não emergiram evidências suficientes para caracterizar uma organização criminosa – lacuna apontada por especialistas e, inclusive, por parceiros de inteligência dos próprios EUA”, explicou. Segundo ela, a nova abordagem desloca o foco da existência de um cartel para condutas individuais e redes informais de corrupção.

Gabriela avalia que, ao enquadrar Maduro como alguém posicionado no topo de um sistema criminoso difuso, o Departamento de Justiça busca fortalecer juridicamente a acusação. “Essa escolha fortalece a acusação, uma vez que desloca o foco para condutas individualizadas e comprováveis, como narcotráfico, corrupção e associação criminosa, em vez de sustentar um rótulo amplo e conceitualmente frágil de cartel”, afirmou. A advogada também lembrou preocupações expressas por especialistas da ONU quanto ao uso indiscriminado do termo, “advertindo que isso poderia justificar medidas amplas de criminalização generalizada do Estado venezuelano, com efeitos colaterais severos sobre uma população já profundamente vulnerabilizada”.

Apesar do ajuste na narrativa, os Estados Unidos mantêm acusações graves contra Maduro, incluindo supostas relações com grupos armados colombianos, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional, além de cartéis mexicanos como Sinaloa e Zetas. “Maduro Moros e seus cúmplices, durante décadas, fizeram parceria com alguns dos traficantes de drogas e narcoterroristas mais violentos e prolíficos do mundo”, diz a denúncia, que afirma que toneladas de cocaína teriam sido distribuídas aos EUA com apoio de esquemas de corrupção regional.

Em depoimento à Justiça norte-americana, Maduro negou todas as acusações, declarou-se inocente e afirmou ser um prisioneiro de guerra após o sequestro ocorrido no último sábado. O governo de Caracas, por sua vez, sustenta que Washington construiu artificialmente a imagem de um presidente narcotraficante para justificar uma intervenção com interesses econômicos e geopolíticos, especialmente ligados ao controle das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta.

Nesse contexto, Donald Trump tem pressionado o novo governo liderado por Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente a Presidência, exigindo acesso direto aos campos petrolíferos venezuelanos. Em reunião da Organização dos Estados Americanos, o embaixador norte-americano Leandro Rizzuto foi explícito ao afirmar que o petróleo da Venezuela não pode permanecer sob controle de “adversários” do Hemisfério Ocidental. “Esta é nossa vizinhança, é onde vivemos, e não vamos permitir que a Venezuela se transforme em um hub de operações para o Irã, Rússia, Hezbollah, China e agências cubanas de inteligência que controlam o país”, declarou, reforçando o pano de fundo estratégico por trás da disputa.

Foto: Eduardo Munoz


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