O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, revelou em delação premiada que o general da reserva Mário Fernandes foi um dos principais incentivadores para que Bolsonaro adotasse uma medida de intervenção contra a democracia. O relato foi divulgado nesta quinta-feira (20) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e faz parte da investigação sobre a tentativa de golpe de Estado e planejamento de atentados contra autoridades.
Cid afirmou que, entre o fim das eleições de 2022 e a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023, Fernandes pressionava Bolsonaro de forma ostensiva para que houvesse uma ruptura institucional. O general, segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), foi um dos responsáveis pela coordenação de um plano para assassinar Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. A operação, conhecida como “Punhal Verde e Amarelo”, visava instaurar o caos no país para viabilizar um golpe de Estado.
“Ele [Fernandes] estava muito ativo, inclusive nas redes sociais, e mantinha contato direto com manifestantes acampados em frente aos quartéis. O general Freire Gomes, então comandante do Exército, chegou a cogitar puni-lo por sua postura agressiva e pela pressão sobre os generais“, relatou Cid.
Fernandes foi preso em novembro de 2023 em uma operação da Polícia Federal (PF). As investigações apontaram que ele era um dos militares mais radicais do grupo e que desempenhava um papel central na comunicação entre os manifestantes, militares de diferentes patentes e o governo federal.
Outro militar envolvido no esquema era o general Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa, que também está preso. Segundo Cid, Braga Netto conversava diariamente com Bolsonaro após a derrota eleitoral e foi peça-chave na tentativa de golpe. O delator afirmou que organizou uma reunião na casa de Braga Netto, em 12 de novembro de 2022, com a participação dos coronéis Rafael Oliveira e Ferreira Lima. Esse encontro teria iniciado o planejamento dos atentados contra Lula, Alckmin e Moraes.
Cid declarou que deixou a reunião antes que os detalhes do plano fossem discutidos, sob orientação de Braga Netto, para evitar ligações diretas com Bolsonaro. No entanto, a PGR sustenta que o ex-presidente estava ciente do planejamento e concordou com as ações para os atentados.
“Eu não participei do planejamento, não sabia qual era o objetivo, até pelo princípio da compartimentação, que é clássico na inteligência. Apenas ajudava no que me era demandado. Só depois percebi a gravidade da situação”, afirmou Cid em depoimento a Moraes.
Durante a execução do plano, o coronel Rafael Oliveira solicitou a Cid que providenciasse recursos financeiros para viabilizar as ações. Inicialmente, Cid tentou obter o valor com um tesoureiro do Partido Liberal (PL), sem sucesso. Em dezembro de 2022, no Palácio do Planalto, Braga Netto entregou pessoalmente cem mil reais em espécie a Cid, justificando que o montante havia sido arrecadado com empresários do agronegócio.
A PGR afirma que os envolvidos planejavam prender e assassinar as autoridades como parte de uma estratégia para reverter o resultado eleitoral. O relatório da investigação indica que os militares golpistas viam as Forças Armadas como um “poder moderador”, que interviria no processo democrático para manter Bolsonaro no poder.
Com a divulgação das provas e da delação de Cid, os investigadores esperam aprofundar as apurações sobre o envolvimento de outros aliados do ex-presidente no esquema. O caso segue em análise pelo STF, e novas denúncias podem ser apresentadas pela PGR conforme avançam as investigações.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

