Dois governadores de direita que são apontados como presidenciáveis, Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União-GO), preferiram minimizar as ofensas recebidas nesta semana por parte de filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
No domingo, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) publicou em suas redes sociais que governadores da direita “se comportam como ratos” e tentam herdar o capital político de seu pai de forma “oportunista”. A postagem foi reforçada por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal.
Durante evento realizado em São Paulo nesta quarta-feira (19), promovido pelo banco Santander, Zema afirmou que se solidariza com Bolsonaro, processado por tentativa de golpe de Estado, e defendeu dar um “desconto” à família em razão do momento emocional vivido. “Acho que a família Bolsonaro está vivendo um momento difícil. E acho que nós temos de ver todo esse tipo de declaração com um devido desconto. Eu me solidarizo com a família”, declarou.
Já Caiado disse que as manifestações de Carlos e Eduardo devem ser analisadas sob um aspecto “médico” e associou a postura dos filhos do ex-presidente ao desespero. “Isso é muito comum, num momento de desespero, como eles vivem neste momento, sem dúvida nenhuma, vendo o pai ali numa prisão domiciliar, sem ser julgado”, afirmou.
Os dois dividiram palco com o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD), que criticou a atuação de Eduardo Bolsonaro ao defender sanções contra o Brasil e o Supremo Tribunal Federal. “A culpa da tarifa dos Estados Unidos, a gente sabe de quem que é. O deputado Eduardo Bolsonaro avoca essa culpa, e está lá trabalhando para que tenha mais”, disse. Para Leite, contudo, cabe ao presidente Lula assumir protagonismo para buscar uma saída diplomática. “Mas não interessa simplesmente achar o culpado, é importante achar soluções, e a responsabilidade de administrar diante desse cenário é de uma pessoa que tem a legitimidade do voto popular, que é o Presidente da República (Lula)”, completou.
O evento contou ainda com Helder Barbalho (MDB), governador do Pará, o único do campo governista presente, que preferiu não comentar o assunto.
Zema buscou se diferenciar ao adotar discurso crítico ao governo federal. A banqueiros e investidores, reforçou a narrativa de que salvou Minas Gerais de uma crise fiscal por meio de privatizações e concessões. Em coletiva, também tentou suavizar os ataques recebidos. “Eu quero só dizer que, quanto mais protagonistas a direita tiver, mais forte ela vai ficar. Inclusive, escutei isso do próprio presidente Bolsonaro, com quem eu estive há cerca de 30 dias, para comunicá-lo em primeira mão do lançamento da minha pré-candidatura. E ele mesmo falou, quanto mais candidatos a direita tiver, melhor, mais forte ela vai ficar”, afirmou.
Caiado, ao falar com jornalistas, mencionou experiências pessoais como médico para relativizar as críticas. “Às vezes eu recebia uma pessoa acidentada e o pai dizia ‘esse paciente está nas mãos de Deus e nas mãos de você, doutor. Por favor, salve meu filho’”, contou. “Tinha outros que chegavam e diziam ‘presta atenção, se meu filho morrer, eu volto aqui para acertar com vocês’.” Ele disse que essa pressão emocional é comparável ao que a família Bolsonaro enfrenta.
Foi também Caiado quem lançou a promessa mais polêmica: caso seja eleito presidente em 2026, concederia anistia aos presos dos eventos de 8 de janeiro. Ele não detalhou se a medida se estenderia a Jair Bolsonaro ou a outros réus investigados por envolvimento na tentativa de golpe.
Leite aproveitou para alertar sobre riscos econômicos relacionados às decisões do Supremo. Ele mencionou que medidas do ministro Flávio Dino, que buscam limitar efeitos de sanções impostas pelos Estados Unidos a brasileiros pela lei Magnitsky, podem impactar o sistema financeiro nacional. “Não é do interesse de ninguém que haja uma fragilização do setor financeiro brasileiro e dos bancos brasileiros, dos investidores, e dos brasileiros comuns, os trabalhadores têm os seus recursos nos bancos. Há que se achar com o setor uma articulação que preserve a autoridade e a soberania do país, mas sem expor o nosso sistema bancário”, ponderou.
O tom das falas revelou diferentes estratégias. Zema se posicionou de forma mais incisiva contra Lula, exaltando medidas de sua gestão em Minas Gerais. Caiado destacou ajustes fiscais em Goiás e usou números de segurança pública para fortalecer seu discurso. Leite preferiu focar na recuperação do Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024. Helder Barbalho, por sua vez, concentrou-se em listar conquistas do Pará na pauta ambiental e na preparação para a COP30, marcada para novembro.
No geral, Zema e Caiado optaram por contemporizar os ataques vindos do clã Bolsonaro, buscando preservar espaço no campo da direita e se credenciar como alternativas para 2026, sem romper totalmente com o bolsonarismo.
Foto: Rafael Garcia

