O governo do presidente Lula está se mobilizando para implementar um projeto de reestruturação das agências reguladoras, iniciativa que, segundo o ministro da Casa Civil, Rui Costa, deve ser apresentada em breve. A proposta ainda está em fase de formulação, com a Advocacia-Geral da União (AGU) responsável por colher sugestões de diversos ministérios antes de submetê-la à Casa Civil. A expectativa é que o projeto traga mudanças significativas na composição e no funcionamento das agências, com o objetivo de melhorar a eficiência regulatória em áreas cruciais para a economia brasileira.
A discussão sobre a necessidade de reformar as agências reguladoras não é nova. Desde os primeiros governos petistas, já se falava em alterar a estrutura e o poder dessas instituições, mas as propostas nunca avançaram de forma decisiva no Congresso Nacional. Desta vez, no entanto, a gestão Lula 3 parece determinada a levar a ideia adiante, impulsionada por recentes crises que reacenderam o debate sobre o papel dessas agências, especialmente no que diz respeito à sua capacidade de regular setores estratégicos.
Durante um encontro realizado em São Paulo, Rui Costa confirmou a um grupo de empresários que o governo deseja acelerar essas mudanças, destacando a urgência de ajustar a atuação das agências reguladoras para que elas se alinhem aos interesses da atual administração. O evento, promovido pela Esfera Brasil, reuniu cerca de 20 empresários de diferentes setores, como saúde, alimentação e vestuário, na casa de João Camargo, presidente do conselho do grupo. Costa explicou que há um “pleno acordo” dentro do Planalto e entre os ministros envolvidos sobre a necessidade de modificar, por exemplo, o processo de indicação dos diretores dessas agências. Atualmente, os principais cargos são ocupados por indicações do governo anterior, o que, segundo ele, dificulta a implementação de políticas mais alinhadas com os objetivos da atual gestão.
A insatisfação com o desempenho das agências reguladoras ficou evidente durante o almoço, especialmente no que diz respeito à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Embora o foco inicial do governo tenha sido a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em função dos apagões recentes em São Paulo, a Anvisa se tornou o principal alvo das críticas por parte dos empresários presentes. Eles relataram problemas com a demora na aprovação de medicamentos, mesmo aqueles que já foram autorizados em outros países com elevado padrão científico, como os Estados Unidos e nações da Europa.
Essa lentidão no processo de regulação, segundo os empresários, estaria prejudicando não apenas o setor farmacêutico, mas também a economia como um todo. A indústria de alimentos e bebidas, por exemplo, também sofre com a burocracia excessiva, o que, de acordo com os relatos, impacta negativamente o desenvolvimento e a competitividade desses setores. Os participantes do encontro destacaram que a atuação da Anvisa muitas vezes parece funcionar como um “freio de mão” para o crescimento dessas indústrias no Brasil.
Rui Costa, por sua vez, mostrou-se compreensivo com as críticas e afirmou que é preciso modernizar os procedimentos da Anvisa. Segundo o ministro, não faz sentido que a agência exija a repetição de estudos já validados por autoridades regulatórias internacionais, como a Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos, o que acaba por atrasar a liberação de medicamentos em até cinco anos. Para ele, esse tipo de prática não só prejudica o setor, mas também dificulta o acesso da população a medicamentos importantes, além de limitar a expansão da indústria farmacêutica nacional.
A expectativa do governo é que, com as mudanças propostas, as agências reguladoras possam se tornar mais ágeis e eficientes, facilitando a aprovação de novos produtos e serviços sem comprometer a segurança e a qualidade. Além disso, a reforma deve incluir alterações no processo de escolha dos diretores das agências, de modo a garantir que essas instituições estejam mais alinhadas com as políticas públicas da atual administração.
O próximo passo, conforme mencionado por Rui Costa, será a apresentação formal do projeto, que ainda precisa passar pelo crivo de diferentes ministérios antes de seguir para o Congresso. O governo está otimista quanto à possibilidade de aprovar as mudanças, especialmente agora, com o reforço de argumentos relacionados à crise energética e à necessidade de desburocratizar setores estratégicos como o da saúde.
Essa iniciativa reflete o esforço do governo Lula em ajustar a estrutura administrativa do país, buscando um equilíbrio entre o fortalecimento das agências reguladoras e a criação de um ambiente mais favorável ao desenvolvimento econômico. Com as alterações propostas, espera-se que as agências ganhem mais celeridade em suas decisões, contribuindo para um Brasil mais competitivo e dinâmico.
Foto: Henrique Raynal/CC

