O relacionamento entre o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva atingiu um dos momentos mais tensos desde o início do atual mandato. A expressiva derrota do Palácio do Planalto na noite desta quarta-feira, quando a Câmara derrubou o decreto presidencial que aumentava a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), é apenas um dos exemplos mais recentes do crescente distanciamento entre Motta e o governo federal.

Incomodado com a postura do Executivo, o deputado passou a rejeitar ligações da ministra da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política do governo Lula. Por diversas vezes, Gleisi tentou entrar em contato com Motta na tentativa de iniciar um diálogo que pudesse evitar a derrota iminente na Câmara, mas o presidente da Casa ignorou os pedidos de conversa.

Além de se recusar a atender Gleisi, Motta também deixou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sem resposta. O chefe da equipe econômica havia enviado mensagens buscando estabelecer comunicação, mas Motta simplesmente não retornou.

O presidente da Câmara tem criticado duramente o comportamento de Haddad, que, segundo ele, age com “deslealdade” ao atacar decisões do Congresso Nacional em bastidores e declarações públicas. Motta também tem se queixado de que o governo federal adota um discurso que tenta isolar o Legislativo, apresentando o Congresso como suposto defensor de interesses de “lobbies” e de setores privilegiados da sociedade.

De acordo com interlocutores próximos, Motta tem afirmado que não está disposto a “fazer o jogo do governo” e que seguirá defendendo os interesses da Câmara dos Deputados. Para ele, sustar o decreto que elevava o IOF foi um movimento necessário para reforçar sua posição e a autonomia da Casa.

A ofensiva liderada por Motta contra o decreto ganhou ainda mais peso após o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), ter conduzido a derrubada de uma série de vetos presidenciais em sessão anterior. Aliados de Motta avaliam que a Câmara precisava dar uma resposta igualmente contundente ao Palácio do Planalto, para não ficar atrás no embate institucional.

Integrantes do governo avaliam que, por trás da postura de Motta, há também o interesse de antecipar as articulações para a eleição presidencial de 2026. Eles lembram que Motta chegou à presidência da Câmara com o apoio de lideranças do centrão que pretendem lançar ou apoiar um nome da direita na próxima disputa pelo Palácio do Planalto.

Para auxiliares de Lula, esse movimento explica a mudança de comportamento de Motta, que anteriormente dava sinais de que estava disposto a construir uma solução negociada sobre o IOF, buscando um texto que fosse aceitável ao Congresso.

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), considerou a derrota no plenário da Câmara como “bastante traumática”. Segundo Wagner, havia um entendimento firmado entre Motta, os líderes partidários e Haddad para seguir com o decreto do IOF da forma proposta. O senador, próximo de Lula, destacou que o Congresso “vive de cumprir acordos” e lamentou que esse tenha sido quebrado.

Wagner afirmou que Lula deverá buscar uma conversa direta com Hugo Motta e Davi Alcolumbre para tratar das consequências da votação.

Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

 

 


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