A decisão do governo de escalar Gleisi Hoffmann para a articulação política com o Congresso Nacional provocou um novo desentendimento dentro do Partido dos Trabalhadores (PT). O líder do governo na Câmara, José Guimarães (CE), queria assumir a Secretaria de Relações Institucionais no lugar de Alexandre Padilha, mas não foi contemplado. Insatisfeito, ele se recusou a ocupar um mandato-tampão na presidência do partido. Com isso, o senador Humberto Costa (PE), ex-ministro da Saúde, surge como o nome mais cotado para assumir o comando da legenda até julho.
Atualmente, Guimarães e Humberto Costa são dois dos cinco vice-presidentes do PT. Em reunião da Executiva Nacional, marcada para depois do Carnaval, Gleisi precisará indicar um substituto temporário para a presidência do partido, pois em 10 de março tomará posse como ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais. Pelo estatuto do PT, o nome escolhido precisará ser aprovado pelo Diretório Nacional em até 60 dias, e há possibilidade de disputa interna.
A estratégia inicial do grupo de Gleisi era indicar Guimarães como presidente interino até 6 de julho, quando os filiados do partido votarão para eleger a nova direção petista. O plano era fortalecer o deputado e construir uma base de apoio para que ele derrotasse Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara e ex-ministro, que é o favorito do presidente Lula para assumir a presidência do PT a partir do segundo semestre.
Apesar do apoio de Lula, Edinho enfrenta resistência dentro de sua própria corrente política, a Construindo um Novo Brasil (CNB), que é a mais influente do partido. O embate reflete um momento delicado para o PT, em um contexto de queda na popularidade do presidente. O comando da sigla é estratégico porque o novo presidente será responsável por coordenar a campanha à reeleição de Lula ou do candidato que ele escolher para 2026.
Uma das principais disputas internas gira em torno da tesouraria do partido. Uma parte da CNB defende a manutenção de Gleide Andrade na Secretaria de Finanças. Gleisi e seu grupo estão entre os que apoiam sua permanência. Para viabilizar a reeleição de Gleide, o comando do PT chegou a alterar seu estatuto em uma tensa reunião realizada no último dia 17. Antes, o estatuto limitava a três os mandatos consecutivos para dirigentes e parlamentares, mas a regra foi flexibilizada.
Os aliados de Edinho, por outro lado, desejam trocar o comando da tesouraria. Um dos nomes cogitados para a posição é o do deputado estadual Emídio de Souza, que também é ligado ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
No Palácio do Planalto, havia a esperança de que a ida de Gleisi para o ministério reduziria a oposição interna a Edinho dentro da CNB. Entretanto, a situação não evoluiu conforme esperado. Gleisi e seus aliados se incomodaram com algumas declarações do ex-prefeito, acreditando que ele quer conduzir o PT de forma mais moderada, diminuindo o confronto direto com o bolsonarismo.
Diante do impasse, uma ala da CNB alinhada a Lula estuda lançar um pré-candidato para disputar a presidência contra Edinho. O objetivo seria forçá-lo a desistir da candidatura.
Edinho, por sua vez, evita se manifestar publicamente sobre a disputa para não ampliar a polêmica. Por outro lado, Guimarães também decidiu recuar. Em conversas reservadas, aliados do deputado relatam que ele se sente magoado, acreditando ter sido excluído das negociações ministeriais.
A frustração de Guimarães se intensificou com os resultados das eleições municipais de 2024. Fortaleza, reduto eleitoral do deputado e do ministro da Educação, Camilo Santana, foi a única capital conquistada pelo PT no pleito. Guimarães sempre sonhou em liderar a Secretaria de Relações Institucionais, mas foi pego de surpresa ao saber que Gleisi assumiria a pasta no lugar de Padilha.
Agora, com a rejeição de Guimarães, Humberto Costa se firma como o nome mais provável para presidir interinamente o PT até a definição do novo comando do partido em julho.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

