A prévia da inflação oficial avançou 0,25% em dezembro e fechou o ano com alta acumulada de 4,41%, segundo dados divulgados nesta terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O resultado confirma que o índice terminou o ano abaixo do teto da meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional, que é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Com isso, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, não precisará encaminhar carta explicando eventual descumprimento da meta.
Os números fazem parte do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15, o IPCA-15, considerado uma prévia da inflação oficial. O resultado veio em linha com as expectativas do mercado financeiro. Economistas consultados pela Bloomberg projetavam exatamente uma variação de 0,25% em dezembro e um acumulado anual próximo de 4,41%, confirmando um cenário já antecipado pelos analistas nas últimas semanas.
Apesar do desempenho mais comportado no fechamento do ano, especialistas alertam que o quadro ainda exige atenção por parte da autoridade monetária. “Embora a inflação tenha fechado dentro do teto da meta, a composição do índice não permite uma leitura totalmente confortável”, avaliam economistas ouvidos pelo mercado. O Banco Central segue responsável por calibrar a política de juros de modo a evitar pressões inflacionárias mais persistentes.
Leonardo Costa, economista do ASA, destaca que a inflação dos serviços subjacentes, indicador que exclui itens mais voláteis e reflete pressões mais estruturais, alcançou 5,76% no acumulado de 12 meses. Segundo ele, esse movimento tende a persistir no curto prazo. “Acreditamos que novas altas podem se repetir nos próximos dois meses, o que mantém um sinal de alerta”, afirmou. Para Costa, o desempenho mais benigno dos bens industrializados em dezembro esteve fortemente ligado à queda do dólar e à valorização do real ao longo do ano.
“O balanço qualitativo de dezembro foi pior do que o registrado nos últimos meses”, acrescentou o economista, ressaltando que o comportamento dos serviços continua sendo o principal foco de preocupação.
Antônio Ricciardi, economista do Daycoval, compartilha da mesma avaliação. Para ele, os serviços intensivos em mão de obra apresentaram aceleração em relação ao mês anterior, contrariando as expectativas de arrefecimento. “Esse é justamente um dos componentes que o Banco Central gostaria de ver desacelerar. O movimento reforça a necessidade de cautela na condução da política monetária”, disse.
Alexandre Maluf, economista da XP, também observou que a leitura desagregada do índice ficou “levemente pior do que o esperado”. Na sua avaliação, a inflação de serviços só deve desacelerar de forma mais consistente em 2026, quando pode recuar de cerca de 6% para algo em torno de 5,3%. “Isso reforça nossa avaliação de que o Comitê de Política Monetária deve iniciar um ciclo de flexibilização apenas em março”, afirmou.
No detalhamento dos dados de dezembro, o avanço dos preços foi puxado principalmente pelo grupo Transportes. As passagens aéreas subiram 12,71% no mês, enquanto os serviços de transporte por aplicativo registraram alta de 9%. Os combustíveis apresentaram variação média de 0,26%, com aumento de 1,70% no etanol e de 0,11% na gasolina. Em contrapartida, o gás veicular e o óleo diesel recuaram 0,26% e 0,38%, respectivamente“Esse movimento era amplamente esperado, dada a sazonalidade típica do aumento das passagens aéreas no fim do ano”, observou Ricciardi, ao comentar o impacto do período de festas sobre o índice.
O grupo Vestuário também exerceu pressão relevante em dezembro. As roupas infantis subiram 1,05%, as femininas tiveram alta de 0,98% e as masculinas avançaram 0,70%. Segundo analistas, a reversão mais rápida dos descontos concedidos durante a Black Friday contribuiu para esse comportamento.
Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, destacou que as promoções realizadas em novembro se dissiparam mais rapidamente do que indicavam as projeções iniciais. “A diluição dos descontos ao longo do mês anterior acabou elevando os preços de dezembro com maior intensidade”, explicou.
Por outro lado, o grupo Alimentação e bebidas apresentaram variação moderada, de 0,13% no mês. A alimentação no domicílio, que engloba os produtos comprados em supermercados, registrou queda pelo sétimo mês consecutivo, segundo o IBGE. Já a alimentação fora de casa subiu 0,65%, impulsionada por altas no lanche, de 0,99%, e na refeição, de 0,62%.
No balanço geral, o fechamento do IPCA-15 abaixo do teto da meta é visto como um alívio institucional, mas não como um sinal definitivo de tranquilidade. Analistas avaliam que o cenário inflacionário segue desafiador, exigindo prudência do Banco Central na definição dos próximos passos da política monetária, especialmente diante da persistência das pressões nos serviços.
Foto: Alexandre Cassiano

