O advogado-geral da União, Jorge Messias, vem articulando apoios para consolidar seu nome como favorito à próxima vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Evangélico e aliado próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Messias tem procurado equilibrar o respaldo de setores progressistas e conservadores dentro das igrejas, ampliando sua interlocução com lideranças religiosas de diferentes correntes. A possível indicação é vista com entusiasmo por setores do PT que buscam aproximar o governo do eleitorado cristão. Se confirmado, Messias poderá protagonizar um fato inédito: a presença de dois ministros evangélicos na mais alta Corte do país.
O nome do atual chefe da Advocacia-Geral da União voltou ao centro das discussões após a aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso. A relação de confiança com Lula e o perfil técnico consolidado já o tornavam um nome natural para a vaga. Mas é a sua identidade religiosa que ganha destaque neste momento, quando o governo tenta se aproximar novamente de segmentos evangélicos, especialmente após resistências registradas em pleitos recentes.
Criado em uma família evangélica no Recife, Messias costuma relembrar em discursos o incentivo dos pais, Edna e Edson, para a vida de fé. Desde 2016, ele frequenta a Igreja Batista Cristã, em Brasília, liderada pelo pastor Sérgio Carazza — ex-secretário-executivo de Damares Alves no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, durante o governo Bolsonaro. Apesar da ligação de Carazza com o campo conservador, a relação entre ambos é de amizade e respeito. O pastor chegou a pedir votos para Damares em 2022, mas preservou o vínculo com o ministro da AGU.
Na congregação, Messias atua como diácono e já integrou o conselho fiscal. Cumpre funções simples, como ajudar na portaria e participar da Santa Ceia. O pastor Carazza o define como um homem de fé genuína: “Messias é um evangélico ‘raiz’. Ele é de esquerda conservadora, defende os valores cristãos e os trabalhadores. Mesmo depois de virar ministro, continuava recebendo as pessoas na porta da igreja.”
O ministro da AGU mantém diálogo com representantes de denominações tradicionais, como as igrejas batistas e presbiterianas. Durante debates sobre o Plano Nacional de Educação, ele foi reconhecido pela Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (Anajure) como um interlocutor essencial no governo, por defender a autonomia das escolas confessionais. Messias se manifestou contra a ideia de restringir o proselitismo religioso em instituições católicas e evangélicas, postura alinhada a lideranças cristãs. “Messias sempre foi um excelente nome técnico, mas fez questão de afirmar sua identidade evangélica. Isso é importante para nós”, declarou Uziel Santana, diretor de assuntos internacionais da Anajure.
Essa atuação, embora discreta, fortaleceu sua imagem junto a um público que costuma enxergar com desconfiança membros do governo petista. Nos bastidores, Messias é considerado uma ponte entre o Executivo e as igrejas, especialmente as chamadas “históricas”. Ainda que tenha relação mais tímida com pastores pentecostais e neopentecostais, ele vem ampliando o diálogo com esses grupos desde 2023. Sua presença na Marcha para Jesus, organizada pelo bispo Estevam Hernandes, é um exemplo. Em 2023, foi vaiado ao mencionar Lula, mas no evento de 2025 foi aplaudido ao dizer que “ama o apóstolo Estevam” e entregar uma carta do presidente ao bispo.
Entre lideranças próximas ao bolsonarismo, Messias também encontra menos resistência do que se poderia supor. O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, afirmou não ter contato direto com o advogado-geral, mas descartou oposição à sua eventual indicação: “Não vou usar o mesmo critério da esquerda, de bombardear qualquer indicado. Minha divergência com ele é ideológica, mas não tenho nada contra sua moral.”
Se for nomeado, Messias será o segundo ministro evangélico da Corte, ao lado de André Mendonça, presbiteriano e ex-AGU do governo Bolsonaro. A convivência entre ambos tem sido cordial. Em congressos jurídicos e eventos da bancada evangélica, os dois trocaram elogios públicos. Messias chegou a afirmar que tem “admiração” e “amizade” por Mendonça. Essa postura de respeito, mesmo entre diferentes campos políticos, reforça o perfil conciliador que o ministro vem construindo.
Durante uma conferência da bancada evangélica na Câmara, Messias destacou que muitos dos presentes não apoiam o governo Lula, mas pediu “compreensão” e afirmou “orar pela vida de cada um”. A fala foi interpretada como um gesto de pacificação num ambiente frequentemente polarizado entre esquerda e direita.
A postura de Messias também se manifesta em produções do PT voltadas ao público cristão. Em 2024, ele participou de vídeos da Fundação Perseu Abramo, intitulados “O que pensam os evangélicos petistas”. Neles, defendeu que a laicidade do Estado é essencial para garantir liberdade de culto. “A laicidade é o que assegura que minha fé seja exercida com tranquilidade”, afirmou. O discurso retoma argumentos clássicos do protestantismo histórico, que, desde o século XIX, defende a separação entre Igreja e Estado como garantia da própria liberdade religiosa.
Dentro do PT, a avaliação é que Messias tem se consolidado como figura de equilíbrio entre a política institucional e o universo religioso. É visto como alguém capaz de dialogar tanto com alas progressistas quanto com conservadores, sem abrir mão de princípios constitucionais. Um dirigente petista resume: “Messias é a prova de que é possível ser de esquerda e evangélico sem contradição.”
Entre lideranças cristãs, o sentimento é semelhante. O pastor Cesário Silva, da Assembleia de Deus em Jundiaí e membro do Movimento Evangélico Progressista, afirma que o nome de Messias é “bem aceito entre evangélicos de várias vertentes”. Segundo ele, “há uma percepção de que Messias representa um novo tempo de diálogo entre fé e política, sem extremismos”.
A possível indicação de Jorge Messias ao STF, portanto, transcende a escolha de um jurista para o mais alto tribunal do país. Representa também uma tentativa do governo Lula de reconstruir pontes com um setor social que foi decisivo nas últimas eleições. No plano simbólico, a presença de dois ministros evangélicos no Supremo — Messias e Mendonça — poderia sinalizar que a fé e a diversidade ideológica podem coexistir no Judiciário.
Enquanto Lula avalia os nomes que poderiam ocupar a vaga de Barroso, Messias segue em sua rotina discreta, participando de cultos e reuniões políticas. Entre orações e debates jurídicos, ele tenta demonstrar que fé e razão não são incompatíveis. Como resumiu um aliado próximo, “Messias é o tipo de evangélico que acredita no diálogo e vê na Constituição uma forma de expressar a justiça que sua fé ensina.”
Foto: Edilson Dantas

