Os temporais que atingiram a Zona da Mata mineira e deixaram milhares de pessoas desabrigadas, centenas de desalojados e dezenas de mortos escancararam um problema que vai muito além do volume de chuva registrado em poucos dias. Para especialistas, o cenário observado em Juiz de Fora e Ubá é resultado direto da combinação entre mudanças climáticas aceleradas e decisões humanas que historicamente negligenciaram a agenda ambiental e o planejamento urbano.
As enchentes, enxurradas e deslizamentos que devastaram bairros inteiros revelam um padrão que se repete em diferentes regiões do país. Eventos extremos deixaram de ser exceção e passaram a integrar o cotidiano das cidades brasileiras, especialmente daquelas que cresceram sem controle adequado da ocupação do solo e sem políticas consistentes de adaptação climática.
“Quando estamos falando de extremos, de riscos ambientais, estamos falando de mudanças climáticas”, afirmou o geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora. Para ele, os desastres recentes não podem ser tratados como fatalidades naturais, mas como consequências previsíveis de escolhas políticas e econômicas feitas ao longo do tempo.
Segundo o professor, a prevenção exige uma agenda sólida de políticas públicas voltadas ao meio ambiente, tema que, em sua avaliação, foi relegado a segundo plano nos últimos anos. Ele aponta que discursos negacionistas em relação ao aquecimento global acabaram abrindo espaço para a paralisação de investimentos e para o enfraquecimento de estruturas de prevenção.
“Toda essa onda negacionista relacionada às mudanças climáticas, obviamente, reverbera agora em desastres como esses”, avaliou Felippe. Especialista em hidrologia, geografia física e riscos socioambientais, ele alerta que chuvas intensas e eventos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes, exigindo respostas estruturais e permanentes.
A negligência, segundo o geógrafo, ocorre em todos os níveis de governo, tanto no Brasil quanto em outros países. A pauta climática, que inclui planejamento urbano e ordenamento territorial, é frequentemente apresentada por agentes políticos como um obstáculo ao crescimento econômico, criando uma falsa dicotomia entre desenvolvimento e preservação ambiental.
“Essa falsa contraposição continua sendo usada como ativo na disputa eleitoral”, analisou. Para ele, a insistência nesse discurso impede avanços concretos e adia decisões que poderiam salvar vidas, sobretudo nas áreas mais vulneráveis das cidades.
Apesar das críticas, Felippe destaca que é justamente na política que devem ser buscadas as soluções. Uma das prioridades, em sua avaliação, é o ordenamento urbano, já que o poder público perdeu o controle sobre o uso do solo para o capital imobiliário, que passou a definir, na prática, o valor das áreas e o perfil socioeconômico de quem pode ocupá-las.
O resultado desse processo é a expulsão da população de baixa renda para regiões de menor valor econômico, que coincidem, em grande parte, com áreas de risco ambiental. Encostas
instáveis, margens de rios e zonas sujeitas a alagamentos tornam-se o destino de famílias que não encontram alternativas no mercado formal de habitação.
“O discurso de que as pessoas pobres não devem ocupar áreas de risco despreza o elemento mais importante: é o capital imobiliário que define quem vai morar aonde”, ressaltou o professor. Para ele, responsabilizar exclusivamente os moradores é ignorar a lógica estrutural que empurra essa população para locais perigosos.
Em Juiz de Fora, observa Felippe, os bairros que concentraram as maiores perdas humanas e materiais são justamente os mais pobres. Trata-se, segundo ele, de uma população com menor capacidade de resiliência, que enfrenta mais dificuldades para se reconstituir após tragédias e depende quase integralmente da atuação do poder público.
O professor lembrou ainda que as áreas de risco são amplamente conhecidas pelos órgãos técnicos. O problema, afirma, é que ações de mitigação, fundamentais dentro de uma política ambiental consistente, esbarram na escassez de recursos financeiros e na falta de prioridade política.
“Pelo que li nos jornais, em Minas Gerais, verbas destinadas ao enfrentamento de chuvas sofreram cortes expressivos entre 2023 e 2025”, afirmou. Levantamento do jornal O Globo, com base em dados do Portal da Transparência, indica que os recursos para a Defesa Civil estadual caíram de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões, no período analisado. Procurado, o governo estadual não se manifestou.
Além de obras e investimentos estruturais, Felippe defende que políticas de resiliência incluam a conscientização da população. Em muitos bairros vulneráveis, moradores não sabem como agir diante de alertas de risco geológico ou hidrológico, o que aumenta a exposição ao perigo.
“É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro”, recomendou. Para ele, a comunicação direta e contínua com as comunidades é tão importante quanto intervenções físicas no território.
A maioria das vítimas dos temporais registrados na segunda-feira, dia 23, é de Juiz de Fora, município que apresenta uma das maiores proporções de moradores em áreas de risco, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden. Em apenas 1 dia, a cidade recebeu quase todo o volume de chuva esperado para o mês de fevereiro.
Os impactos se concentraram em bairros como Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier, onde foram registrados resgates em meio a alagamentos e deslizamentos. A topografia montanhosa da cidade, naturalmente suscetível a inundações e escorregamentos de terra, contribui para o alto número de alertas emitidos pelo órgão federal.
A posição geográfica de Juiz de Fora também favorece a chegada de umidade vinda diretamente do mar. Como o oceano está mais quente, ocorre maior evaporação de água, que, ao encontrar as elevações do relevo, se transforma em chuvas intensas, explicou Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden.
De acordo com o meteorologista, o aquecimento global está diretamente ligado a esse fenômeno. “O Oceano Atlântico está muito mais quente do que o normal. Na costa, a temperatura está 3 graus Celsius acima do padrão e isso é muito para o oceano”, avaliou.
Seluchi explicou que o ar que passa sobre o mar aquecido carrega mais umidade, aumentando o potencial de chuvas volumosas no continente. “Nos últimos anos, temos mais umidade do que costumamos ter nesta época e isso é uma consequência do aquecimento global”, afirmou.
Para ele, os desastres atuais representam um custo das decisões tomadas no passado, incluindo o descumprimento de acordos internacionais voltados à redução das emissões de gases de efeito estufa. “Esse é um preço que pagamos pelas decisões tomadas no passado”, disse.
Diante desse cenário, Seluchi avalia que a principal alternativa é a adaptação. Tornar as cidades mais resilientes, porém, é um desafio complexo, especialmente em áreas já densamente ocupadas. Como conter inundações e deslizamentos é cada vez mais difícil, ele defende a retirada preventiva de moradores sempre que houver alertas, além do controle rigoroso da expansão urbana em áreas de risco.
O meteorologista cita o Japão como exemplo de país que investe fortemente na preparação da população. Frequentemente atingido por grandes desastres naturais, o país treina seus moradores para evacuação rápida e segura. “A Defesa Civil não evacua um por um. Ali, as pessoas já sabem a rota de fuga”, observou.
Pensando também na resiliência urbana, dentro de uma política de enfrentamento das mudanças climáticas, há soluções de engenharia que podem ser adotadas. Essa é a avaliação do professor Matheus Martins, da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialista em drenagem urbana.
Ele lembra que Juiz de Fora se desenvolveu a partir do vale do Rio Paraibuna em direção às encostas, o que aumentou a suscetibilidade da cidade a cheias e deslizamentos. “Trata-se de um vale encharcado que, quando recebe excesso de chuva, tem a água ocupando a planície, inundando a várzea, que é onde a cidade cresceu”, explicou.
Para reduzir os impactos nas áreas próximas aos rios, Martins sugere intervenções como os pôlderes, técnica que isola regiões inundáveis com muros e utiliza bombas para retirar o excesso de água de forma controlada. A solução, inspirada em experiências da Holanda, é conhecida no Brasil, embora seja utilizada apenas em eventos extremos.
“Talvez, para grandes volumes de chuva, o alagamento seja inevitável”, afirmou. “Mas precisamos trabalhar a cidade para que ela consiga conviver da melhor forma possível com isso, e os pôlderes são uma das soluções.”
Em áreas de várzea, outra alternativa apontada é a criação de parques públicos, além de medidas para aumentar a permeabilidade do solo. Esse tipo de intervenção, segundo ele, também deveria ser adotado em estados como Rio de Janeiro e São Paulo, que enfrentam problemas recorrentes com enchentes.
“No solo com floresta, projetamos que apenas 10% da chuva escoe, enquanto 90% fica retido e se infiltra lentamente. Em bairros urbanizados, ocorre quase o oposto: 90% da água vira escoamento superficial, gerando alagamentos”, explicou.
A prefeitura de Juiz de Fora possui estudos para intervenções em bairros específicos, mas muitas obras ainda não foram concluídas. O governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas no município entre 2024 e 2025, por meio do Novo PAC, mas apenas parte dos recursos foi efetivamente liberada.
Para a área de drenagem urbana, há previsão de repasse de R$ 356 milhões. As obras fazem parte do projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100 e incluem bairros como Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata, considerados estratégicos para a redução de riscos futuros.
Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

