O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas à atuação da família Bolsonaro na articulação do tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, e comparou o ex-presidente e seus aliados ao traidor histórico Joaquim Silvério dos Reis, responsável por delatar o líder da Inconfidência Mineira, Tiradentes. A fala foi feita nesta sexta-feira (25), durante agenda do Novo PAC em Osasco, na Grande São Paulo.

Vocês sabem por que Tiradentes foi traído?”, questionou Lula ao iniciar a comparação. “Silvério dos Reis sabia que Tiradentes estava querendo fazer um movimento de independência, naquela época a independência de Minas Gerais, no dia que o governador anunciasse aumento de imposto. Apareceu um cara que parecia amigo dele, chamado Silvério dos Reis, e esse cara traiu Tiradentes”, afirmou o presidente, ao relembrar o episódio histórico de 1789.

“Por conta dessa traição, Tiradentes foi preso e enforcado. Por isso ele é o mais importante herói nacional, porque morreu em defesa da independência deste país”, continuou. A Inconfidência Mineira foi um movimento articulado por religiosos, militares e intelectuais da elite local, que buscava romper com o domínio colonial português, então sustentado por pesados tributos como a “derrama”. O movimento foi delatado por Joaquim Silvério dos Reis, e Tiradentes acabou sendo o único condenado à morte, executado em 1792, tornando-se mártir da independência.

Ao estabelecer o paralelo, Lula acusou diretamente os aliados de Jair Bolsonaro de agirem contra os interesses do país ao buscar apoio do presidente norte-americano, Donald Trump, para pressionar por uma intervenção externa. “Veja que absurdo. Esses mesmos cidadãos ou cidadãs, que utilizavam a camisa da seleção brasileira e a bandeira nacional, se dizendo patriotas, estão agora agarrados nas botas do presidente dos Estados Unidos, pedindo para ele fazer intervenção no Brasil, numa total falta de patriotismo”, afirmou. “Junta a falta de patriotismo com sem-vergonhice, com traição. Estão pedindo para o presidente dos EUA aumentar a taxa das coisas que nós vendemos para poder libertar o pai. Ou seja, estão trocando o Brasil pelo pai.”

Que patriota é esse? Isso é pior do que Silvério dos Reis. Porque Silvério traiu Tiradentes, mas esse cara está traindo a nação, está traindo o povo brasileiro”, concluiu Lula, sem citar nomes diretamente, mas em referência clara à atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente.

As tarifas de 50% sobre produtos brasileiros foram anunciadas por Trump há pouco mais de duas semanas, por meio de uma carta enviada a Lula e publicada em suas redes sociais. As medidas estão previstas para entrar em vigor no próximo dia 1º de agosto. No documento, Trump condiciona a retirada das sanções à anistia de Jair Bolsonaro, que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.

A articulação por parte dos Estados Unidos contou com a participação direta de Eduardo Bolsonaro, que chegou a se licenciar do mandato na Câmara dos Deputados para viver temporariamente no país norte-americano. Durante sua estadia, o parlamentar se reuniu com figuras do governo Trump com o objetivo de obter apoio político e pressionar contra o julgamento do pai.

Desde que o tarifaço foi anunciado, Lula tem declarado publicamente que o Brasil não aceitará passivamente a medida. Segundo ele, o país está disposto a adotar “medidas de reciprocidade” caso as sanções sejam efetivadas. “Se eles quiserem manter essa posição, o Brasil vai agir com firmeza”, afirmou Lula em ocasiões anteriores. No entanto, até o momento, nenhuma ação formal foi anunciada. A expectativa no governo é que qualquer medida só seja adotada a partir da entrada em vigor das tarifas.

A posição do presidente é compartilhada por diferentes setores da sociedade civil. Nesta mesma sexta-feira, um ato realizado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco, reuniu entidades sindicais, partidos políticos, movimentos sociais e juristas para repudiar as tarifas e defender a soberania nacional. No manifesto lido durante o evento, os participantes criticaram o que classificaram como “intervenção estrangeira indecorosa” e destacaram que “a nação brasileira jamais abrirá mão de sua soberania, tão arduamente conquistada”.

A fala de Lula reforça o tom de indignação que tem marcado as reações à ofensiva do governo Trump contra o Brasil. A retórica do presidente brasileiro busca nacionalizar o debate e retratar os que atuaram junto ao governo americano como traidores do interesse nacional. “Nenhum brasileiro que respeita seu país pode aceitar que se troque o destino do povo por proteção política para um único indivíduo. Isso não é política. Isso é submissão”, afirmou um ministro do governo sob reserva.

O Palácio do Planalto mantém a expectativa de que o próprio ambiente político nos Estados Unidos pressione Trump a recuar. Um grupo de senadores democratas enviou carta à Casa Branca nesta semana criticando duramente a iniciativa. Para Lula, no entanto, a prioridade é manter a dignidade e a autonomia do país. “O Brasil não vai se curvar a chantagens. Somos uma nação soberana e vamos defender isso com firmeza e responsabilidade”, disse o presidente em outro trecho do discurso.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil


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