O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar neste domingo o pacote de tarifas anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos importados do Brasil. Durante discurso no encerramento do 17º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), em Brasília, Lula destacou que respeita os limites no relacionamento com o governo americano, mas afirmou que o Brasil tem porte e interesses próprios a defender.
“Eles têm que saber que nós temos o que negociar”, declarou Lula. “Nós queremos negociar igualdade de condições. Estados Unidos é muito grande, é o país mais bélico do mundo, mais tecnológico do mundo. Mas nós queremos ser respeitados pelo nosso tamanho. Temos interesses econômicos, estratégicos, queremos crescer e não somos uma republiqueta. Querer colocar um assunto político para nos taxar economicamente é inaceitável”, completou o presidente.
O governo brasileiro ainda busca estabelecer um canal direto de diálogo entre os dois chefes de Estado desde que Trump anunciou a cobrança de 50% sobre determinadas importações brasileiras. A primeira tentativa diplomática ocorreu na semana passada, com um encontro entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.
“Eu tenho um limite de briga com o governo americano. Eu não posso falar tudo que eu acho que tenho que falar. Nós temos que falar apenas aquilo que é necessário”, disse Lula, enfatizando que a relação com os Estados Unidos exige ponderação e estratégia.
Lula também retomou a defesa de uma alternativa ao dólar nas transações internacionais, uma proposta que já foi alvo de críticas por parte de Trump. Segundo o presidente brasileiro, o objetivo é promover maior autonomia nas relações comerciais com outros países. “Eu não vou abrir mão de achar que a gente precisa procurar construir uma moeda alternativa para que a gente possa negociar com os outros países. Eu não preciso ficar subordinado ao dólar”, afirmou.
Desde o anúncio do tarifaço, o Palácio do Planalto tem reforçado um discurso centrado na soberania nacional. A mensagem tem sido amplamente divulgada sob o slogan “Brasil com S de Soberania”. Lula já declarou em diversas ocasiões que não aceitará pressões externas que ameacem a autonomia brasileira nas relações comerciais e políticas.
Na sexta-feira anterior ao discurso, Trump indicou estar aberto ao diálogo com o governo brasileiro e afirmou que está à disposição para conversar com Lula. Apesar disso, integrantes do governo relatam dificuldades para avançar nas conversas e na construção de uma agenda comum.
O 17º Encontro Nacional do PT, realizado sob o lema “Brasil justo e próspero”, adotou as cores da bandeira nacional e reforçou o discurso em defesa da soberania desde sua abertura. O evento, que começou na sexta-feira, foi marcado por manifestações culturais e políticas, incluindo canções sobre o conflito tarifário. Um dos destaques foi um funk com trechos remixados do discurso em que Lula ironiza a atuação do deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos: “Trump, libera meu pai”.
O evento também oficializou a posse de Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara (SP), como novo presidente nacional do PT. Sua escolha reforça a sintonia entre a direção do partido e o núcleo político mais próximo de Lula. Edinho já coordenou campanhas presidenciais do petista, além de ter ocupado cargos como ministro da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff e tesoureiro da legenda.
A eleição de Edinho reflete o desejo do Palácio do Planalto de consolidar uma direção partidária alinhada com a estratégia do governo federal. A expectativa é que ele contribua para a ampliação da base aliada no Congresso Nacional e para a intensificação do diálogo com movimentos sociais e setores organizados da sociedade.
Desde sexta-feira, cerca de mil delegados de todas as regiões do país participaram das discussões sobre o novo regimento interno do partido e as diretrizes políticas para os próximos anos. Embora tenham ocorrido disputas internas, a corrente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB), da qual fazem parte Lula e Edinho, manteve a hegemonia no Diretório Nacional, o que reduz a possibilidade de mudanças profundas na linha política ou na estrutura da legenda.
Além das resoluções internas, o encontro também debateu as perspectivas eleitorais do partido para 2026, as articulações com os partidos da frente ampla e estratégias para ampliar a presença digital do PT nas redes sociais. Este último ponto é tratado como uma das prioridades pela nova direção.
A direção do PT vê com otimismo o desempenho recente nas plataformas digitais, com campanhas que extrapolaram os círculos tradicionais da militância. Iniciativas como a defesa da taxação dos super-ricos e as mobilizações em torno da soberania nacional geraram forte engajamento e ajudaram a reposicionar o partido na comunicação online.
A gestão comandada por Edinho pretende intensificar esse tipo de ação. A aposta está na adoção de uma linguagem mais acessível, maior interação com criadores de conteúdo e o fortalecimento da atuação de militantes digitais em diferentes segmentos da sociedade.
Durante seu discurso no evento, Lula também fez uma cobrança direta ao partido. “Se nós fôssemos bons, teríamos feito mais”, declarou, ao convocar a militância a eleger uma bancada ainda maior em 2026. O presidente reforçou que o fortalecimento do Congresso é essencial para garantir a governabilidade e ampliar os avanços em políticas públicas.
O evento foi encerrado com uma reafirmação dos compromissos do PT com o crescimento econômico, a justiça social e a soberania nacional, em resposta ao novo cenário de tensões internacionais provocado pelo governo dos Estados Unidos.
Fotos: Ichiro Guerra

