O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com ao menos três ministros do Supremo Tribunal Federal em um jantar realizado na Granja do Torto, fora da agenda oficial, na véspera da abertura do Ano do Judiciário, no dia primeiro. Durante o encontro, Lula manifestou preocupação com o ambiente de críticas direcionadas à Corte, intensificadas após a repercussão negativa da condução do caso envolvendo o Banco Master.

Participaram da reunião os ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes. O encontro foi revelado pelo jornal Folha de S.Paulo. De acordo com relatos de interlocutores, o presidente avaliou que o momento político é sensível e que o Supremo tem sido alvo de questionamentos públicos que exigem cautela institucional e coordenação entre os Poderes.

Na conversa, Lula mencionou que o debate sobre a criação de um código de conduta para o Supremo não ocorre em um momento considerado adequado. Segundo ele, a iniciativa avança justamente quando ministros da Corte enfrentam críticas recorrentes, o que poderia ampliar tensões e alimentar interpretações distorcidas sobre o funcionamento do Judiciário.

O presidente voltou a defender que a apuração das supostas irregularidades relacionadas ao Banco Master ocorreu de forma independente e técnica. Lula destacou a atuação da Polícia Federal, do Banco Central e do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ressaltando que não houve interferência política nos procedimentos investigativos conduzidos pelos órgãos competentes.

A proposta do código de conduta é uma das principais bandeiras do presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, que anunciou recentemente a indicação da ministra Cármen Lúcia como relatora do texto. A iniciativa, no entanto, enfrenta resistência interna de parte dos ministros, entre eles Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. A escolha de Cármen Lúcia foi interpretada nos bastidores como uma tentativa de blindar a proposta e impor um freio na condução do debate.

Ao tratar das críticas dirigidas ao Supremo, Lula não mencionou o contrato do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, nem o resort Tayayá, empreendimento da família do ministro Dias Toffoli que teve participação adquirida por fundos ligados ao Banco Master. Segundo relatos, o presidente observou que o escrutínio sobre figuras públicas, no atual cenário político, exige prudência redobrada.

Procurados para comentar o teor do encontro, os ministros citados e o Palácio do Planalto optaram por não se manifestar oficialmente.

O jantar ocorreu pouco antes da cerimônia de abertura do Ano do Judiciário, evento do qual Lula participou. Na ocasião, o presidente decidiu discursar e fez uma defesa enfática do papel do Supremo Tribunal Federal na preservação da democracia e do Estado Democrático de Direito.

Em sua fala, Lula voltou a apoiar a ação penal relacionada à trama golpista que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele afirmou que o Judiciário atuou dentro de suas atribuições constitucionais e não buscou protagonismo indevido.

O Judiciário tem sido o guardião da Constituição, do Estado Democrático de Direito e da soberania do voto popular. O Supremo não tomou para si atribuições de outros Poderes e agiu no estrito cumprimento de sua responsabilidade institucional”, afirmou.

Lula também destacou que ministros do Supremo foram alvos de ataques e ameaças, inclusive de morte, em referência a episódios envolvendo apoiadores de Bolsonaro e ao chamado Plano Punhal Verde e Amarelo, que previa atentados contra autoridades. Segundo o presidente, mesmo diante dessas pressões, a Corte manteve seu compromisso institucional e reafirmou que divergências políticas devem ser resolvidas pelas urnas e pelo diálogo democrático.

Foto: Antônio Augusto/STF


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