O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou movimentações para retomar as conversas com lideranças partidárias e integrantes do Congresso Nacional com o objetivo de destravar a tão aguardada reforma ministerial. A sinalização feita pelo petista a aliados próximos aponta que ele pretende intensificar os diálogos com dirigentes de legendas da base e da cúpula legislativa já nesta semana, após retornar de sua viagem internacional por Japão e Vietnã.
Embora mesmo os auxiliares mais próximos de Lula evitem afirmar até onde essa reforma poderá ir, há expectativa no governo e no Congresso de que as conversas agora possam, de fato, destravar o processo de rearranjo ministerial, tema que se arrasta desde o início do ano. A avaliação é de que o retorno do presidente ao Brasil pode marcar uma nova fase no processo de articulação.
Na missão internacional que terminou recentemente, Lula reforçou os sinais de aproximação com o Congresso ao incluir na comitiva os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), além de ministros e líderes partidários de siglas como MDB, União Brasil e PP. O gesto foi visto como um esforço para reaproximar o governo dos parlamentares.
Também participaram da viagem o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ambos chegaram a ser cogitados para assumir cargos no Executivo, mas Pacheco, em reunião com Lula no último dia 15, afirmou que não pretende integrar o ministério. Já Lira, segundo interlocutores, nega conversas formais sobre o tema, embora aliados digam que ele não descartaria aceitar um cargo estratégico, caso fosse convidado.
Quatro parlamentares que integraram a comitiva relataram que a iniciativa de Lula em se aproximar de senadores e deputados durante a viagem gerou uma avaliação positiva no Congresso. De acordo com eles, o saldo político foi favorável ao presidente, especialmente pela disposição em dialogar diretamente com os parlamentares, algo que era cobrado desde o início do atual mandato.
Os congressistas ressaltam que, desde 2023, existe uma expectativa de que Lula se envolva pessoalmente na articulação política. Agora, com a presença de figuras-chave em sua comitiva e encontros frequentes, avaliam que o presidente está demonstrando uma mudança concreta de postura.
Segundo um líder governista, ao reduzir a tensão nas relações com o Congresso, Lula cria um ambiente mais favorável para tratar, num segundo momento, de mudanças na Esplanada dos Ministérios e de pautas legislativas de interesse direto do Palácio do Planalto. Para esse parlamentar, o gesto presidencial reforça a disposição de redesenhar a base e garantir maior estabilidade no segundo biênio do mandato.
Outro congressista que acompanhou Lula na missão internacional afirma que o presidente tem buscado estreitar os laços com Alcolumbre e Motta. Desde fevereiro, quando foram eleitos para seus respectivos cargos, Lula manteve encontros com ambos, os convidou para cerimônias no Palácio do Planalto e, mais recentemente, para viagens oficiais, algo que, segundo aliados, deve se tornar recorrente.
Como parte dessa estratégia, Lula deve procurar Alcolumbre e Motta individualmente nos próximos dias para tratar das trocas ministeriais. Há expectativa entre aliados de que os encontros informais ocorridos durante a viagem já tenham adiantado pontos sensíveis, embora conversas mais aprofundadas estejam previstas para agora. O próprio presidente sinalizou, durante agenda no Japão, que os temas sensíveis seriam tratados no retorno ao país.
“Eu não seria irresponsável de discutir uma reforma ministerial durante uma viagem internacional. Fiz questão de não abordar esses assuntos no avião, deixamos para falar em terra firme”, declarou Lula, deixando claro que o tema será retomado com prioridade nesta nova etapa.
Dois ministros de destaque confirmaram que Lula também pretende reunir-se com presidentes de partidos que possuem ministros em sua equipe para discutir os próximos passos. Nessa lista, aparecem Gilberto Kassab (PSD) e Marcos Pereira (Republicanos), dois dirigentes que, embora integrem a base do governo, têm mantido postura crítica e defendido maior protagonismo nas decisões.
A discussão sobre mudanças nos ministérios ocorre num momento em que o governo enfrenta queda de popularidade. Apesar de comporem a base, partidos como PSD, União Brasil (ambos com três pastas) e Republicanos (com uma pasta) têm cogitado lançar candidaturas próprias à Presidência em 2026. Internamente, integrantes do PP também expressam insatisfação com o espaço no governo. Embora o partido esteja representado por André Fufuca, ministro do Esporte, uma ala da legenda chegou a sinalizar que poderia deixar a base.
Além do espaço restrito para novos nomes, há ainda o desafio do tempo. Deputados e senadores lembram que, para concorrer em 2026, os ministros precisam deixar seus cargos até abril do mesmo ano, o que limitaria o tempo de permanência no Executivo. Essa questão pesa nas negociações com os partidos do centrão, que demonstram cautela diante da baixa aprovação do governo nas pesquisas recentes.
Mesmo entre os dirigentes com cargos no governo, não há garantia de apoio em 2026. Em janeiro, Kassab classificou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como “fraco” e afirmou que o PT perderia se a eleição ocorresse naquele momento. Em março, Antonio Rueda, presidente do União Brasil, declarou à Folha que Lula atravessava o pior momento de seu terceiro mandato e precisava ouvir mais os aliados. Já Marcos Pereira, do Republicanos, defendeu publicamente que seu partido deve apoiar uma candidatura de centro-direita em 2026.
Nos primeiros meses de 2024, Lula promoveu trocas em três ministérios: Sidônio Palmeira assumiu a Secretaria de Comunicação Social no lugar de Paulo Pimenta, Gleisi Hoffmann passou a comandar a Secretaria de Relações Institucionais, substituindo Alexandre Padilha, que, por sua vez, foi deslocado para o Ministério da Saúde, no lugar de Nísia Trindade.
Aliados próximos ao presidente não descartam que novas mudanças ocorram, inclusive em pastas atualmente sob comando do PT. Entre os ministérios citados como possíveis alvos de substituições estão a Secretaria-Geral da Presidência, chefiada por Márcio Macêdo; o Ministério das Mulheres, de Cida Gonçalves; o Desenvolvimento Agrário, com Paulo Teixeira; e o Ministério do Desenvolvimento Social, sob liderança de Wellington Dias.
A expectativa é que, com o avanço das conversas com dirigentes partidários e congressistas, Lula consiga reorganizar sua base e montar uma Esplanada mais alinhada aos desafios políticos e eleitorais que se aproximam.
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

