O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu os 32 repatriados da Faixa de Gaza que desembarcaram na Base Aérea de Brasília no fim da noite desta segunda-feira (3). Tão logo pousou o avião, por volta das 23h30, uma ambulância buscou duas crianças para serem hospitalizadas devido a um quadro de desnutrição.

Os repatriados saíram do Egito em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), pela manhã e chegaram em solo brasileiro por volta das 20h20, no Recife (PE), para abastecer. Lá, o grupo foi atendido por uma equipe médica que identificou que duas das 17 crianças estavam com desnutrição. Elas foram encaminhadas para uma unidade hospitalar na própria base de Brasília.

“Hoje é um dia de felicidade, porque estamos recebendo 32 seres humanos que já viveram em paz e não precisavam viver no inferno que foram esses últimos 37 dias”, declarou Lula.

Inicialmente, o grupo contava com 34 pessoas, mas duas desistiram da repatriação e optaram por permanecer na Faixa de Gaza. Ao todo, são 22 brasileiros natos, sete palestinos naturalizados brasileiros e três familiares próximos. Eles conseguiram autorização para deixar Gaza no domingo e entrar no Egito, após quase um mês de espera angustiante e intensas negociações.

O grupo ficará hospedado por dois dias no alojamento na própria base aérea. Serão acompanhados por uma equipe multidisciplinar, incluindo psicólogos, médicos, assistentes sociais, entre outros profissionais. Também haverá auxílio da Polícia Federal para a emissão de documentos e regularização a fim de possibilitar a inclusão de todos nos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família e outros benefícios socioassistenciais.

A partir de quarta-feira (15), quatro pessoas permanecerão em Brasília, duas vão para Florianópolis (RS), uma para Cuiabá (MT), uma para Novo Hamburgo (RS) e 24 têm o estado de São Paulo como destino final, sendo que 12 serão encaminhadas para um abrigo no interior por não terem mais vínculos familiares no Brasil.

Também participara da recepção, a primeira-dama, Janja da Silva, e vários ministros do governo. Em coletiva à imprensa transmitida pelo canal do YouTube do governo federal, um dos brasileiros, Hasan Rabee, agradeceu ao presidente e ao governo brasileiro pelo suporte e apoio durante os 37 dias de espera:

“Foram 37 dias de muito sofrimento. Passamos fome e sede. O que está acontecendo lá na verdade é um massacre. As bombas caem por todo lado, minhas filhas ficaram muito chocadas e tristes”, declarou ele, que pediu a Lula que providenciasse a vinda do restante da família que ainda está na Faixa de Gaza.

A estudante brasileira Shahed al-Banna, 18 anos, morava há um ano e meio em Gaza e contou que estava se preparando para ir para a faculdade, quando começaram os bombardeios:

“Chegamos a pensar que não conseguiríamos chegar e morreríamos todos. Agradeço muito, do fundo do coração, por terem ajudado a gente a chegar aqui. Estou muito feliz e emocionada. Mas também estamos muito preocupados com os familiares que ainda estão lá. Já perdi muitos familiares e amigos nesta guerra, todos perdemos nossas casas”, disse a brasileira.

Lula respondeu que faria todo os esforço da diplomacia brasileira para trazer familiares de brasileiros que ainda estão na zona do conflito:

“Enquanto houver lista e possibilidade de a gente tirar uma pessoa, mesmo que seja uma só na Faixa de Gaza, a gente vai estar à disposição. Não vamos deixar ninguém para trás”, disse ele.

O presidente brasileiro voltou a criticar a atuação do Estado de Israel na Faixa de Gaza:

“Nunca vi uma violência tão brutal e desumana contra inocentes. Se o Hamas cometeu um ato de terrorismo, o Estado de Israel também está cometendo vários atos de terrorismo ao não levar em conta que as crianças e mulheres não estão em guerra. Já mataram mais de 5 mil crianças e milhares de crianças estão desaparecidas, que devem estar debaixo dos escombros”, disse ele.

Lula informou à imprensa que solicitou ao chanceler brasileiro, Mauro Vieira, que entrasse em contato com o presidente da China Xi Jinping, e atual presidente do Conselho de Segurança da ONU, para que continuasse a cobrar “dos outros presidentes um comportamento humanista, de afeto com crianças e mulheres”.

Mauro Vieira declarou que o Itamaraty já está em contato com as autoridades locais para localizar outros brasileiros que estejam na área de conflito e que desejem voltar ao Brasil:

“E da mesma forma que continuaremos trabalhando no Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde o Brasil ocupa uma vaga até dezembro deste ano para que se possa encontrar uma solução diplomática negociada que crie um corredor humanitário e uma pausa humanitária”.


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