O agravamento da guerra no Oriente Médio, com a entrada dos Estados Unidos no conflito entre Israel e Irã, fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retomar com mais intensidade a defesa da reforma no Conselho de Segurança da ONU. Para Lula, a atual crise evidencia a incapacidade do órgão internacional de agir de forma eficaz diante de situações que ameaçam a paz mundial. “O presidente avalia que o Conselho de Segurança se mostra inerte frente a tragédias humanitárias e conflitos graves”, apontam interlocutores próximos ao Planalto.
Nos últimos dias, Lula se reuniu com o chanceler Mauro Vieira e com o assessor especial para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, para discutir o agravamento do cenário internacional. “O governo brasileiro entende que a falta de consenso e a inação do Conselho reforçam a necessidade de sua reformulação para que possa representar de forma mais justa o atual equilíbrio geopolítico“, dizem assessores.
A crise foi exposta novamente neste domingo, 22, durante uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O encontro terminou sem que fosse votada a resolução apresentada por China, Rússia e Paquistão, que pedia um cessar-fogo imediato no Oriente Médio. “A falta de ação no Conselho de Segurança é um reflexo de sua paralisia estrutural”, comentam diplomatas brasileiros.
Poucas horas antes da reunião, o Itamaraty divulgou nota oficial condenando os ataques realizados pelos Estados Unidos contra instalações nucleares iranianas. “O comunicado do governo brasileiro defende a necessidade urgente de uma solução diplomática para o conflito, alertando que a continuidade da guerra pode provocar ‘danos irreversíveis para a paz e a estabilidade’, além de ameaçar o regime internacional de não proliferação e desarmamento nuclear“, registrou o Ministério das Relações Exteriores.
O professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), avaliou que o Conselho de Segurança perdeu sua eficácia. “O Conselho de Segurança da ONU é, efetivamente, um tigre sem dentes”, comparou. Trevisan destacou que o colegiado, composto por 15 países-membros — cinco permanentes (Estados Unidos, China, França, Reino Unido e Rússia) e dez rotativos —, se tornou incapaz de oferecer respostas rápidas a conflitos graves e emergências humanitárias.
Desde o início de seu primeiro mandato, Lula defende publicamente a ampliação do Conselho de Segurança da ONU. Para o presidente brasileiro, somente com a inclusão de novos membros permanentes será possível atualizar o funcionamento do órgão e garantir que ele reflita os interesses do mundo contemporâneo. “O atual modelo não representa o novo xadrez geopolítico”, reiteram auxiliares de Lula.
Em várias ocasiões, o Brasil já conseguiu manifestações de apoio da China à proposta de ampliação do Conselho. No entanto, os avanços sempre ficaram restritos à esfera diplomática, sem resultado concreto. “As conversas esbarram no desinteresse dos membros permanentes em dividir o poder de veto“, avaliam especialistas.
O ex-ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes Ferreira manifestou preocupação com o rumo da guerra e com as implicações para o sistema internacional. “Quem preza o direito internacional como expressão da razão fica chocado com essa prevalência da lei do mais forte. Tudo isso é um horror”, declarou Aloysio.
Atualmente, o Brasil está sem embaixador tanto no Irã quanto em Israel. Segundo informações do Itamaraty, André Veras Guimarães deve assumir em breve o posto em Teerã. No caso de Israel, a situação é mais delicada. A decisão de retirar o embaixador brasileiro do país foi tomada por Lula em maio do ano passado, após sucessivos atritos com o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
O gesto político sinalizou o descontentamento do presidente brasileiro com as ações israelenses na região. “Não há previsão de que o Brasil volte a nomear um embaixador para Tel Aviv enquanto persistirem os desentendimentos entre os dois governos”, confirmaram fontes diplomáticas.
Com informações do Estadão
Foto: Ricardo Stuckert/PR

