Nos primeiros meses que antecederam sua chegada ao poder em 2003, Luiz Inácio Lula da Silva iniciou uma estratégia que marcaria sua política externa: a diplomacia baseada na “química pessoal”. O episódio mais emblemático dessa abordagem ocorreu em dezembro de 2002, quando o recém-eleito presidente brasileiro foi recebido por George W. Bush na Casa Branca — um encontro que rompeu barreiras ideológicas e antecipou uma relação de respeito entre um líder progressista latino-americano e um republicano texano.

A visita, narrada no livro “18 Dias: Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, do professor da FGV Matias Spektor, foi articulada em conjunto por aliados de Lula e integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso. O objetivo era simples, mas decisivo: assegurar aos Estados Unidos que o ex-sindicalista, visto por setores conservadores como radical, havia se transformado em um político pragmático e disposto ao diálogo.

Segundo Spektor, o encontro estava programado para durar trinta minutos, mas se estendeu por quarenta e cinco. “O motivo não foi o fato de Lula ser prolixo, mas a química inesperada entre os novos colegas”, escreve o autor. Bush abriu a conversa com uma provocação amistosa, dizendo que muitos em Washington acreditavam que dois homens como eles jamais poderiam fazer negócios juntos, mas que o encontro serviria para provar o contrário. Lula respondeu que havia superado muitos preconceitos, e Bush, bem-humorado, replicou: “Sou o campeão de preconceitos.”

Com sua tradicional gravata vermelha e um broche do PT preso ao terno, Lula adotou tom conciliador. Quando Bush tentou direcionar a conversa às tensões no Iraque, o brasileiro desviou com elegância: afirmou que sua guerra era outra — “a guerra contra a fome”. A resposta cativou o americano, que demonstrou apoio público ao programa Fome Zero, símbolo do futuro governo petista.

Embora o diálogo tenha esfriado em momentos pontuais — sobretudo quando abordaram temas como o papel das instituições financeiras ou a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) —, Lula rapidamente retomou o tom emocional e otimista. Segundo Spektor, esse estilo cativou Bush, acostumado a líderes que também usavam empatia como ferramenta política. Em certo momento, o presidente eleito do Brasil declarou que “o futuro do país é brilhante” e que “nós só queremos construir nosso destino”.

Ao final, Bush confidenciou a um assessor: “Realmente gosto desse cara. Não tem enganação: ele é aquilo que aparenta.” O encontro no Salão Oval, embora não tenha tratado de decisões concretas, teve enorme valor simbólico. Como escreveu Spektor, serviu para transmitir ao mundo que “a direita americana podia fazer negócios com um líder da esquerda latino-americana” — uma lição de diplomacia pessoal que Lula voltaria a aplicar, décadas depois, em suas conversas com Donald Trump.

Fonte: O Globo

Foto: Roberto Stuckert Filho


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