Em entrevista à “Folha de São Paulo”, Marília Campos, prefeita de Contagem (MG) e a mais votada do Brasil nas eleições de 2024, fez uma avaliação crítica da estratégia política atual do Partido dos Trabalhadores (PT). Reeleita no primeiro turno com 61% dos votos, Marília destacou a importância de o partido rever suas prioridades e adotar uma postura mais voltada ao diálogo, deixando de lado a polarização exacerbada que tem marcado o discurso político. Ela defende que essa mudança de abordagem é essencial para ampliar o alcance do PT e conquistar eleitores de diferentes espectros políticos, incluindo aqueles que votaram no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Marília está em seu quarto mandato como prefeita de Contagem, uma das maiores cidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, com aproximadamente 620 mil habitantes. A cidade é a maior administrada pelo PT no Brasil. Para a prefeita, o discurso do partido tem se focado excessivamente em questões identitárias e na polarização política, o que, segundo ela, dificulta a construção de um projeto mais inclusivo e atraente para uma base de eleitores mais ampla. “O partido tem condições de apresentar propostas concretas, mas o que mais vejo são parlamentares focados em questões essencialmente identitárias ou em polarização com o passado”, afirmou Marília na entrevista.
Ela ressaltou que, em sua administração em Contagem, adotou uma postura de diálogo com diversos setores, evitando a polarização que, em sua opinião, tem prejudicado o PT em nível nacional. “Conquistei parte do eleitorado que se identifica com a direita, que votou no Bolsonaro, mas que optou por nossa gestão pela diferença que fizemos na vida dessas pessoas”, comentou Marília. A prefeita destacou a importância de uma ampla aliança partidária como fator decisivo para sua vitória. Na campanha, ela contou com o apoio de 13 partidos, o que contribuiu para sua vitória no primeiro turno, sendo escolhida por 188.228 eleitores.
Sobre o desempenho do PT nas eleições municipais de Belo Horizonte, Marília sugeriu que o partido deveria ter adotado uma postura diferente, apoiando a reeleição do atual prefeito Fuad Noman (PSD) já no primeiro turno.
Marília também abordou sua relação com o governo federal, destacando a necessidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aproximar mais da população, com uma agenda mais ativa de viagens e diálogo. “Acho que Lula precisa visitar mais o Brasil, para que as pessoas sintam a proximidade do presidente”, sugeriu a prefeita, apontando que a falta de interlocução por parte dos ministros e do próprio presidente pode prejudicar o contato direto com os eleitores.
Questionada sobre a possibilidade de se candidatar ao governo de Minas Gerais nas eleições de 2026, Marília afirmou que, no momento, não tem intenção de deixar a prefeitura. No entanto, ela acredita que o futuro candidato ao governo deve ter um perfil de centro, com capacidade de diálogo e disposição para lidar com os desafios enfrentados pelo estado. “Precisamos de um projeto de recuperação para Minas Gerais, com alguém representativo e ousado para lutar pelo estado”, disse, destacando sua afinidade com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), como uma possível parceria para o futuro.
Por fim, a prefeita de Contagem fez críticas à gestão do ex-governador Fernando Pimentel (PT), afirmando que a falta de clareza em algumas ações contribuiu para o desgaste do PT em Minas Gerais. Marília sugeriu que o ex-governador poderia ter comunicado melhor suas decisões e ações ao longo do mandato, o que poderia ter evitado parte da rejeição enfrentada pelo partido no estado. Para ela, essa falta de clareza afetou negativamente a imagem do PT junto ao eleitorado mineiro.

