Uma iniciativa de restauração florestal desenvolvida na Mata Atlântica, no sul da Bahia, vem demonstrando que é possível reverter décadas de degradação ambiental com base em ciência, planejamento e manejo adequado. O projeto conseguiu reduzir em até cinquenta por cento o tempo de crescimento das espécies nativas, ao mesmo tempo em que recriou florestas produtivas mais resistentes às mudanças climáticas e capazes de prestar serviços ambientais essenciais.
Segundo Laura Guimarães, supervisora de melhoramento genético, pesquisa e desenvolvimento da empresa Symbiosis, a estratégia de recuperação ambiental começou em dois mil e quatorze. O trabalho teve como base a coleta sistemática de sementes e o mapeamento genético de árvores remanescentes, com o objetivo de identificar indivíduos com maior potencial de conservação, adaptação e produtividade dentro de cada espécie estudada.
A partir desse processo científico, foi possível selecionar matrizes que apresentavam características superiores, como resistência a períodos de seca, crescimento mais rápido e maior capacidade de adaptação a solos degradados. O resultado desse esforço permitiu a recuperação de mil hectares da Mata Atlântica, utilizando quarenta e cinco espécies nativas escolhidas de forma criteriosa.
Entre as espécies selecionadas estão jacarandá, jequitibá, ipês, angicos e diversas outras árvores emblemáticas do bioma. A escolha não se deu apenas pelo valor ecológico, mas também pela capacidade dessas espécies de se desenvolverem em diferentes condições ambientais, contribuindo para a formação de florestas mais diversificadas e equilibradas.
De acordo com Mickael Mello, gerente do viveiro de mudas da Symbiosis, muitas das árvores utilizadas como matrizes são centenárias. Elas sobreviveram ao intenso processo histórico de exploração da Mata Atlântica e carregam uma genética altamente adaptada às condições locais, resultado de séculos de seleção natural em ambientes adversos.
Além da escolha de indivíduos com alto potencial genético, o projeto adotou uma estratégia de plantio que prioriza a variabilidade genética. O objetivo é evitar a homogeneização das florestas restauradas, reduzindo riscos associados a pragas, doenças e eventos climáticos extremos, que tendem a afetar mais severamente áreas com baixa diversidade.
Laura Guimarães explica que a diversidade genética é fundamental para a estabilidade das novas florestas. Ao combinar indivíduos com diferentes comportamentos ecológicos e níveis de adaptação, o processo de restauração favorece populações mais resilientes, capazes de enfrentar as transformações ambientais previstas para as próximas décadas.
Historicamente, a Mata Atlântica ocupava cerca de cento e trinta milhões de hectares do território brasileiro, uma extensão comparável à área de países inteiros da América do Sul. Atualmente, restam aproximadamente vinte e quatro por cento dessa cobertura original, sendo que apenas doze vírgula quatro por cento correspondem a florestas maduras e bem preservadas.
Esses remanescentes estão distribuídos de forma fragmentada em dezessete estados brasileiros, o que compromete a conectividade entre áreas naturais e reduz a capacidade de sobrevivência de inúmeras espécies. A fragmentação também impacta diretamente a variabilidade genética, tornando as populações mais vulneráveis a alterações ambientais.
Rafael Bitante Fernandes, gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica, avalia que essa fragmentação enfraquece a capacidade adaptativa das espécies. Sob pressão constante do uso intensivo do solo, essas populações tornam-se mais suscetíveis a eventos como déficit hídrico, ondas de calor e mudanças climáticas, o que pode levar ao declínio progressivo do bioma.
Para Fernandes, a perda de diversidade não afeta apenas a fauna e a flora, mas também a vida humana. Ecossistemas menos diversos prestam menos serviços ambientais, como regulação do clima, produção de água, controle de doenças, fertilidade do solo e garantia da produtividade agrícola.
Segundo ele, a redução desses serviços contribui para o agravamento de problemas climáticos já observados no país, como chuvas e secas cada vez mais intensas, aumento da frequência de eventos extremos e ocorrência recorrente de tragédias ambientais, incluindo enchentes, enxurradas e escassez hídrica.
Esse cenário de risco ambiental e econômico tem provocado uma mudança significativa na postura do setor privado. Empresas passaram a enxergar a restauração florestal não apenas como ação filantrópica, mas como investimento estratégico e oportunidade de negócio de longo prazo.
Fernandes explica que modelos modernos de restauração florestal permitem o manejo sustentável da vegetação, com exploração controlada e permanente, sem a prática de corte raso. Dessa forma, a floresta continua sequestrando carbono, mantendo seus serviços ecossistêmicos e, ao mesmo tempo, gerando produtos madeireiros e não madeireiros de alto valor agregado.
Além da madeira, essas florestas podem fornecer óleos essenciais, resinas, sementes, frutos e outros insumos que ampliam as possibilidades econômicas da restauração. Esse modelo reforça a ideia de que conservação ambiental e desenvolvimento econômico não são objetivos opostos, mas complementares.
A diversidade de finalidades ampliou os caminhos possíveis para a restauração da Mata Atlântica. Existem projetos voltados à transformação de áreas sem viabilidade agrícola em florestas produtivas, assim como iniciativas focadas na proteção de recursos naturais indispensáveis para determinados setores econômicos.
Um exemplo citado por Fernandes envolve empresas de geração de energia elétrica a partir da água. Nesses casos, projetos de restauração são desenvolvidos para proteger mananciais que abastecem hidrelétricas, garantindo maior estabilidade na produção energética e reduzindo riscos associados a períodos de estiagem ou chuvas intensas.
Esse reposicionamento do setor privado, aliado à atuação de governos e organizações sociais, resultou na criação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, firmado em dois mil e nove. A iniciativa estabeleceu a meta de recuperar quinze milhões de hectares do bioma até o ano de dois mil e cinquenta.
Fernandes ressalta que a restauração florestal é um processo intencional, que exige planejamento e intervenção humana, mesmo quando a estratégia adotada é apenas induzir a regeneração natural. Segundo ele, essa intencionalidade diferencia a restauração de processos espontâneos de recomposição da vegetação.
O compromisso é particularmente relevante porque a Mata Atlântica é o bioma mais ocupado pelo ser humano no Brasil, abrigando cerca de setenta e dois por cento da população. Estudos da Fundação SOS Mata Atlântica identificaram que, entre mil novecentos e noventa e três e dois mil e vinte e dois, quatro vírgula nove milhões de hectares entraram em regeneração natural.
No mesmo período, porém, um milhão e cem mil hectares foram novamente desmatados, enquanto três vírgula oito milhões permaneceram preservados. Para Fernandes, esses dados mostram avanços importantes, mas também evidenciam a necessidade de políticas públicas mais robustas.
Na avaliação do gestor, a experiência brasileira tem transformado a Mata Atlântica em referência internacional de restauração ambiental. Em eventos e congressos realizados em diversos países, o bioma é citado como um dos principais exemplos globais de ações qualificadas em prol da recuperação florestal.
Apesar dos avanços, Fernandes alerta que ainda há um longo caminho a percorrer para garantir o funcionamento adequado do bioma e alcançar a meta de quinze milhões de hectares restaurados. Como noventa por cento da área da Mata Atlântica está em propriedades privadas, sensibilizar proprietários rurais é um desafio central.
Ele defende a ampliação de políticas públicas que estimulem a restauração, como pagamentos por serviços ambientais, mecanismos de comando e controle que assegurem áreas obrigatórias de preservação e uma política massiva de incentivos à manutenção e recuperação florestal.
O esforço, segundo Fernandes, promete retorno social e econômico expressivo. Ele estima que, a cada dois campos de futebol restaurados, seja possível gerar um emprego direto. Dentro do universo de quinze milhões de hectares, isso representaria um impacto social significativo, consolidando a restauração da Mata Atlântica como motor de desenvolvimento sustentável e geração de renda.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

