A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tornou pública a crise com o senador Flávio Bolsonaro, ampliando um conflito que vinha sendo tratado de forma reservada dentro do Partido Liberal. O episódio expôs divergências sobre a condução política do grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e evidenciou a disputa por influência na organização partidária e pela formação de uma base de aliados para as eleições de 2026.
Michelle utilizou a estrutura do PL Mulher para divulgar um vídeo de aproximadamente 27 minutos no qual rebate críticas e apresenta um balanço de sua atuação à frente da ala feminina da legenda. Gravada na sede da presidência nacional do segmento, em Brasília, a manifestação foi apresentada como um desabafo, mas também destacou ações desenvolvidas desde que assumiu o comando da organização.
Durante a gravação, a ex-primeira-dama afirmou ter percorrido todos os estados brasileiros para fortalecer os diretórios estaduais do PL Mulher e lembrou que o partido elegeu 1.005 mulheres nas eleições municipais de 2024. Segundo ela, esse resultado representou crescimento expressivo em relação ao pleito anterior e refletiu o trabalho de formação política realizado pela legenda em diferentes regiões do país.
Ao longo do vídeo, Michelle faz repetidas referências ao ex-presidente Jair Bolsonaro como “meu marido” e afirma que compartilha com ele as principais decisões políticas. Interlocutores próximos sustentam que a gravação foi previamente comunicada ao ex-presidente e interpretam a estratégia como uma forma de reforçar a ligação direta entre ambos em meio às disputas internas existentes no campo bolsonarista.
Entre as prioridades eleitorais de Michelle estão possíveis candidaturas ao Senado de lideranças ligadas ao PL Mulher, como as deputadas Priscila Costa, do Ceará, Caroline de Toni, de Santa Catarina, e Bia Kicis, do Distrito Federal. A senadora Damares Alves elogiou o trabalho desenvolvido pela ex-primeira-dama, afirmando que a atuação vai além da realização de eventos e inclui programas permanentes de capacitação política.
A estrutura organizada pelo PL Mulher reúne milhares de participantes em todo o país e mantém programas destinados à formação de mulheres conservadoras interessadas na atividade política. O grupo promove cursos, treinamentos, distribuição de cartilhas para candidatas e campanhas de incentivo à participação feminina como fiscais partidárias e mesárias durante os processos eleitorais.
A expansão das atividades foi acompanhada pelo aumento dos recursos destinados ao segmento feminino do partido. Em 2024, o PL Mulher recebeu R$ 16,2 milhões da direção nacional para financiar suas ações em todo o país. Embora Michelle não execute diretamente os recursos, ela participa da definição das prioridades relacionadas à realização de cursos, viagens e eventos, enquanto a direção nacional responde pela administração financeira.
As divergências ganharam força durante a definição das candidaturas no Ceará. Michelle defende o nome da deputada Priscila Costa para disputar uma vaga ao Senado, enquanto a articulação conduzida por Flávio Bolsonaro e outros dirigentes do partido caminhou para uma composição envolvendo o deputado estadual Alcides Fernandes e o pré-candidato ao governo cearense Ciro Gomes. Para aliados, o crescimento da influência de Michelle criou um novo polo de decisões dentro do bolsonarismo, dividindo espaço com o núcleo político formado pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Foto: Divulgação/ PL

