A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro reafirmou, nesta terça-feira, suas críticas à articulação do PL no Ceará para construir uma aliança com o ex-ministro Ciro Gomes, atualmente filiado ao PSDB. Em nota divulgada nas redes sociais, Michelle ressaltou que mantém posição contrária ao acordo e afirmou que não teve intenção de contrariar os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ela, “respeitar opiniões não significa abrir mão da própria consciência”, e, por isso, decidiu expressar seu ponto de vista “com liberdade e sinceridade”. A ex-primeira-dama acrescentou: “Peço aos meus enteados que me entendam e me perdoem. Não foi minha intenção contrariá-los”.

A manifestação ocorreu após críticas de Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, que reagiram negativamente às declarações feitas por Michelle no último domingo, durante visita a Fortaleza para o lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão ao governo cearense. Na ocasião, Michelle gerou constrangimento ao criticar o deputado federal André Fernandes, responsável por liderar negociações locais que incluíam Ciro. Em discurso enfático, ela afirmou: “Eu adoro o André, mas fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita? Isso não dá. Nós vamos trabalhar para eleger o Girão”.

Ciro, que recentemente se aproximou de lideranças do PL, do União Brasil e do Progressistas no Ceará, vinha se posicionando como um potencial aliado em uma frente contra o PT nas eleições estaduais de dois mil e vinte e seis. Porém, a reação de Michelle reacendeu tensões internas. André Fernandes, ao ser questionado depois do evento, declarou que “infelizmente, a própria esposa do ex-presidente chega aqui e diz que fizemos uma movimentação errada, sendo que o próprio Bolsonaro pediu para ligar para o Ciro Gomes no viva-voz”, defendendo que o acordo tinha respaldo do ex-presidente.

A resposta dos filhos de Bolsonaro ampliou o desgaste. Eles alegaram que a articulação havia sido feita com aprovação do pai e defenderam Fernandes. Michelle, por sua vez, reiterou que não aceitar a aliança não significa atacar quem a defende. “Aqueles que defendem essa aliança são livres para continuar com ela, mas não deveriam me criticar por não a aceitar. Eu tenho o direito de não aceitar isso, ainda que essa fosse a vontade do Jair (ele não me falou se é)”, declarou.

Em outro trecho, a ex-primeira-dama afirmou que sua postura é também um gesto de proteção. “Muitas vezes, somos nós, esposas, que somos chamadas a mostrar aos nossos maridos que eles podem estar errando. Isso é normal em qualquer casamento e um precisa ajudar o outro. No episódio de Fortaleza, eu fui apenas uma esposa defendendo o seu marido e a sua família de um homem que sempre nos atacou”, disse ao justificar sua resistência ao nome de Ciro.

Diante do clima de instabilidade, o PL tenta organizar uma reunião interna para amenizar o conflito. A cúpula da sigla, incluindo o presidente Valdemar Costa Neto e o senador Rogério Marinho, convocou encontro para esta terça-feira, em Brasília, que deve contar também com a presença de Flávio Bolsonaro e da própria Michelle. Dirigentes próximos à ex-primeira-dama lembram que o PDT de Ciro Gomes foi o autor da ação que levou à condenação de Jair Bolsonaro na Justiça Eleitoral por causa da reunião com embaixadores em dois mil e vinte e dois, o que reforça sua resistência.

O episódio escancara a divisão dentro do Partido Liberal e da própria família Bolsonaro em torno da estratégia para preservar a influência política do ex-presidente, que segue com acesso restrito ao mundo externo e depende de interlocutores para conduzir posicionamentos públicos. A disputa sobre a aliança no Ceará tornou-se, assim, mais um capítulo de um embate interno sobre quem fala em nome de Bolsonaro e quais caminhos o grupo deve adotar na tentativa de reorganizar a direita para a disputa pelo Palácio do Planalto no próximo ano.

Foto: Divulgação/ PL


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