A discussão sobre a transição energética justa ganhou destaque no primeiro dia do Imersão Indústria 2025, promovido pela FIEMG em Belo Horizonte, reforçando o papel estratégico de Minas Gerais como protagonista no avanço de soluções sustentáveis no setor produtivo brasileiro. O painel “Transição Energética Justa: O Papel da Indústria na Construção de um Futuro Sustentável” reuniu nomes relevantes do setor energético e industrial, incluindo Camila Schoti, diretora de marketing e comercial da (re)Energisa, Lucilene Carvalho, gerente de sustentabilidade do Iveco Group para a América Latina, e Fabiano Santos, gerente de planejamento estratégico da GASMIG.

Logo no início, Camila Schoti traçou um panorama do atual momento brasileiro, destacando que a transição no país ocorre em condições distintas das encontradas na Europa. Segundo ela, o consumo energético nacional segue elevado, principalmente pelas dimensões continentais do país e pela dificuldade de democratização plena do mercado livre de energia. “Temos condições específicas no Brasil, diferente da realidade da Europa, por exemplo. Nossa estratégia tem que estar alinhada à tendência de consumo que no Brasil ainda é alta”, afirmou. Ela observou que, embora alguns setores possam escolher a matriz energética de origem renovável, como solar ou eólica, essa escolha ainda não está disponível para o consumidor residencial.

Ao abordar o chamado “trilema energético”, Camila explicou que o grande desafio é equilibrar sustentabilidade ambiental, segurança no fornecimento e equidade tarifária. Para ela, a descarbonização da matriz depende da ampliação das fontes renováveis, principalmente diante do aumento projetado da demanda energética nas próximas décadas. “À medida que o consumo aumenta, temos que adicionar novas fontes de energia limpa”, observou, destacando que a política industrial precisa estar conectada à expansão da infraestrutura verde.

A executiva também descreveu a atuação da (re)Energisa no cenário nacional. Com mais de um século de presença no Brasil e atuação em onze estados, a empresa aparece entre os maiores players no mercado de energia solar compartilhada, com grande concentração de ativos em Minas Gerais. Esse modelo permite que consumidores residenciais e industriais, mesmo sem estrutura própria de geração, acessem créditos de energia proveniente de unidades solares. Schoti lembrou que mais de 120 usinas já operam sob essa lógica, sendo Minas o estado com a maior capilaridade.

Em seguida, Lucilene Carvalho trouxe ao debate o ponto de vista do setor automotivo pesado, responsável por expressiva parcela das emissões de CO2 no país. “Para ser justa, a energia precisa ser acessível”, destacou. Ela lembrou que o transporte rodoviário responde pela maior parte da logística brasileira, o que torna desafiadora a substituição repentina de combustíveis fósseis por alternativas limpas. A executiva apontou que, segundo estimativas, a idade média da frota nacional de caminhões gira em torno de vinte anos, praticamente o dobro da média europeia, o que eleva o custo de renovação tecnológica.

Lucilene explicou que, no curto prazo, a redução das emissões passa por um processo gradual, com substituição paulatina de motores e incorporação de tecnologias híbridas e soluções com gás natural. Ela destacou que o setor ainda enfrenta obstáculos estruturais, como o alto custo inicial dos veículos menos poluentes e a ausência de infraestrutura nacional de abastecimento elétrico em rotas de longa distância. “Precisamos renovar a frota, poluir menos e garantir motoristas preparados para operar sistemas modernos”, afirmou. A Iveco mantém parceria com o SENAI em Minas Gerais para qualificar profissionais diante da transição tecnológica no setor.

O debate seguiu com a participação de Fabiano Santos, representante da GASMIG, que destacou o papel estratégico do gás natural no processo de transição, especialmente como fonte estável diante da intermitência de usinas eólicas e solares. Ele lembrou que o gás, apesar de fóssil, apresenta “pegada” de carbono significativamente menor do que outros combustíveis ainda usados na matriz brasileira. “Embora seja um combustível fóssil, ajuda na transição energética tornando a matriz menos poluente”, afirmou. Santos explicou que um dos grandes desafios atuais é a interiorização das redes de distribuição, ainda concentradas em áreas industrializadas.

O gerente também salientou que soluções como o biometano têm grande potencial de expansão, especialmente em regiões com forte atividade agroindustrial, como Minas Gerais. Ele destacou que o biometano, derivado de resíduos orgânicos, tem a vantagem de apresentar emissão praticamente neutra. “O biometano é a grande promessa do setor neste momento”, afirmou, prevendo papel importante da tecnologia no médio prazo.

Ao longo do debate, um ponto de convergência entre os painelistas foi a importância da transição gradual, com foco em inovação e políticas públicas federativas. Essa transição deve ser acompanhada de incentivos à adesão tecnológica sem penalizar consumidores ou setores com maior dificuldade de adaptação. O conceito de transição “justa” está justamente em assegurar que a descarbonização não agrave desigualdades ou encareça produtos essenciais.

Minas Gerais foi mencionada de forma recorrente como protagonista no processo, tanto pelo avanço na geração descentralizada quanto pela histórica presença industrial capaz de viabilizar modelos-piloto em infraestrutura energética. A FIEMG, ao sediar o evento, reforçou o discurso de que a energia limpa deve ser instrumento de competitividade industrial, e não apenas uma obrigação regulatória. O setor empresarial mineiro tem pressionado por incentivos em pesquisa, crédito verde e integração logística, sobretudo para universalizar o uso de fontes renováveis.

Em seu desfecho, o painel reforçou a mensagem de que a transição energética não é um ato pontual, mas um movimento contínuo de adaptação industrial, social e tecnológica. Como sintetizou uma das expositoras, “no centro desse processo estão as pessoas, porque a transição é tecnológica, mas também humana”.

Foto: Divulgação/ FIEMG


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