O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), tem feito críticas ao titular da Fazenda, Fernando Haddad (PT), segundo relatos de bastidores ouvidos pela Folha de São Paulo. As declarações foram feitas a aliados políticos e integrantes do governo Lula em conversas reservadas que ocorreram nos últimos meses. As divergências refletem um descompasso crescente na condução da agenda econômica do governo federal, com posições opostas que se intensificaram ao longo do tempo.
Fontes próximas ao Palácio do Planalto relatam que a relação entre os dois ministros está longe de ser cordial. Embora evitem ataques públicos, os sinais de incompatibilidade entre as visões econômicas dos dois ministros têm se tornado cada vez mais evidentes. De um lado, Haddad defende uma política fiscal mais rigorosa, voltada para o equilíbrio das contas públicas. De outro, Silveira se aproxima do ministro da Casa Civil, Rui Costa, para criticar esse enfoque, que consideram excessivamente restritivo e prejudicial a políticas sociais e obras públicas.
Em uma das conversas reservadas que chegaram ao conhecimento da reportagem, Silveira teria dito que a condução da Fazenda é uma das causas da impopularidade enfrentada pelo governo Lula. Em outra ocasião, chegou a sugerir que Haddad poderia ser substituído para reverter a queda de aprovação. Silveira, por sua vez, nega qualquer crítica ao colega e, em nota oficial, afirmou que repudia “ilações baseadas em fofocas” e classificou as informações como “inverdades criadas em bastidores para gerar divisão”.
Apesar da tentativa de manter o discurso institucional, os atritos entre Silveira e Haddad vêm se manifestando em diversos episódios concretos. Um deles envolve a proposta do ministro de Minas e Energia de utilizar recursos do Fundo Social do Pré-Sal para financiar subsídios na conta de luz. A medida, pensada para aliviar o peso das tarifas de energia sobre os consumidores, foi mal recebida por técnicos da Fazenda, que alertaram para o impacto fiscal da proposta.
Outro ponto de tensão foi o novo modelo do Auxílio Gás. Em 2023, Silveira sugeriu expandir o benefício para 22 milhões de famílias, mesmo sem prever dotação no Orçamento. A Fazenda acabou destinando R$ 3,6 bilhões para o programa no projeto de 2025, valor considerado insuficiente para atender à demanda prometida pelo ministro de Minas e Energia. A expectativa é de que esse impasse provoque novos embates entre as pastas ao longo do ano.
Nos bastidores da equipe econômica, o incômodo com Silveira é crescente. As críticas que ele tem feito em conversas privadas chegaram até Haddad, que, segundo interlocutores, passou a demonstrar desconforto com o comportamento do colega. Para aliados do titular da Fazenda, as ações de Silveira têm como objetivo desestabilizar sua permanência no ministério e abrir espaço para um nome mais alinhado a interesses políticos do PSD.
Esse movimento, afirmam técnicos do governo, gera ruído entre os investidores e eleva a percepção de instabilidade política no momento em que o Banco Central aumenta os juros para conter a inflação. A avaliação é de que declarações públicas e bastidores com críticas à política fiscal só pioram o ambiente econômico.
A tensão interna foi levada ao presidente Lula em fevereiro, após reunião na Granja do Torto sem a presença de Haddad. Na ocasião, ministros próximos ao presidente debateram os principais fatores que vinham contribuindo para a queda de popularidade do governo. Segundo reportagens, medidas adotadas pela Fazenda, como a taxação de compras internacionais (as chamadas “blusinhas”) e alterações no Pix, foram apontadas como responsáveis pelo desgaste.
De acordo com relatos, Lula se mostrou contrariado com a exposição pública das críticas à Fazenda e encarregou um ministro de sua confiança de apurar quem teria articulado a divulgação das informações. A suspeita recaiu sobre Silveira, que, mais uma vez, negou qualquer envolvimento e, dias depois, publicou um elogio público a Haddad nas redes sociais.
No dia 25 de fevereiro, após participar de evento com o presidente Lula no Rio Grande do Sul, Silveira elogiou publicamente o colega da Fazenda: “Fatos: o PIB do Brasil cresceu MUITO acima da previsão em 2023/24. Aumento real do salário mínimo. Geração de quase 1,7 milhão de empregos formais no ano passado. Isso é resultado do trabalho do time do presidente Lula, em especial do ministro Haddad”, escreveu.
Ainda na publicação, reforçou o tom conciliador: “Estive com o ministro da Fazenda em evento hoje e reiterei meu apoio ao trabalho que tem sido feito. Ressalto a confiança e o entusiasmo que temos na política econômica do Brasil, liderada por ele e sua equipe”.
Pouco tempo depois, em 11 de março, Lula tentou amenizar as tensões e elogiou ambos durante visita a Betim (MG). Disse que Haddad é o responsável pelos avanços na economia brasileira, enquanto Silveira lidera uma “revolução” na área de transição energética. Desde que assumiu o Ministério de Minas e Energia, Silveira se aproximou de Lula e passou a ser considerado uma espécie de conselheiro político do presidente.
Apesar das aparências de harmonia em público, fontes do governo afirmam que Silveira continuou fazendo críticas nos bastidores. Em uma conversa reservada, o ministro voltou a defender a substituição de Haddad na Fazenda, argumentando que a rejeição ao governo está diretamente relacionada às medidas impopulares do ministério comandado pelo petista. O mesmo raciocínio teria sido apresentado por ele na reunião da Granja do Torto.
Aliados de Haddad também veem ligação entre as críticas de Silveira e declarações feitas por Gilberto Kassab, presidente do PSD, partido ao qual o ministro de Minas e Energia é filiado. Em janeiro, Kassab disse que Haddad era um “ministro da Fazenda fraco”, o que acentuou os rumores de que há uma articulação política coordenada para minar sua permanência no governo.
O estopim do embate entre Haddad e Silveira remonta ao episódio da distribuição dos dividendos extraordinários da Petrobras em 2023. Na ocasião, o ministro da Fazenda era contrário à liberação dos recursos, defendendo a manutenção dos valores como reserva para investimentos. Já Silveira apoiava a distribuição aos acionistas, e acabou vencendo a queda de braço, com a nomeação de Magda Chambriard para a presidência da estatal, em substituição a Jean Paul Prates, que era próximo de Haddad.
Com Chambriard à frente da Petrobras, Silveira conquistou espaço dentro da companhia, nomeando aliados para cargos estratégicos. Juntos, ambos defendem a exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas, uma posição que entra em rota de colisão com os objetivos da agenda verde defendida por Haddad e pela equipe da Fazenda, mais alinhada à pauta ambiental internacional.
Esse antagonismo se reflete na política energética e ambiental do governo Lula, que tenta conciliar a transição para fontes limpas com a necessidade de garantir segurança energética e investimentos no setor. Enquanto Haddad busca avançar com o plano de transformação ecológica, Silveira argumenta que o Brasil não pode abrir mão da exploração de petróleo em regiões estratégicas.
Diante dos embates, o Ministério de Minas e Energia voltou a se manifestar por meio de nota, ressaltando que o ministro reconhece o trabalho de Haddad desde o início do governo. A pasta afirmou ainda que Silveira está comprometido com a implementação de políticas públicas importantes e não tem tempo para “disse-me-disse”. Finalizou dizendo que o ministro não teria receio de externar críticas publicamente, como demonstra em suas frequentes entrevistas à imprensa.
Com informação da Folha
Foto: Ricardo Botelho/MME

