Moradores do bairro Parque Burnier, em Juiz de Fora, na Zona da Mata de Minas Gerais, relataram ter sentido o chão trepidar na tarde de domingo (22), cerca de 24 horas antes do deslizamento de terra que provocou mortes e deixou dezenas de pessoas desaparecidas na região. Os relatos reforçam a percepção de instabilidade do solo após dias consecutivos de chuva intensa.
De acordo com o Corpo de Bombeiros, até o momento foram confirmadas 28 mortes, sendo 21 em Juiz de Fora e sete em Ubá. O número de desaparecidos chega a 44 pessoas, das quais 40 estão em Juiz de Fora e quatro em Ubá. As equipes de resgate seguem trabalhando em meio à lama e aos escombros.
No Parque Burnier, um trecho de rua cedeu e provocou o desabamento de cerca de 12 casas. Somente nesse bairro, há 20 pessoas desaparecidas, com buscas concentradas em áreas onde residências foram soterradas. Cinco dos desaparecidos pertencem à mesma família, a de Mariana de Oliveira Silva, de 40 anos. Entre as vítimas estão uma criança e dois adolescentes.
Moradores descrevem que a área atingida era densamente ocupada, com casas construídas muito próximas umas das outras. Segundo relatos, uma quitinete localizada nos fundos de um terreno teria sido a primeira a desabar, desencadeando o colapso das demais construções ao redor.
Testemunhas afirmam que duas grandes pedras deslizaram encosta abaixo e atingiram as casas, potencializando os danos. O impacto somado ao solo encharcado e à força das chuvas teria sido determinante para o deslizamento de grandes proporções.
“Todo mundo do bairro sentiu o chão tremer no domingo, depois de vários dias de chuva. Na segunda-feira, por volta das 20h, ouvimos dois estrondos muito fortes. Quando saímos para a rua, as casas já estavam no chão”, relatou Joice Silveira, de 36 anos.
Alexandre Rangel, morador da rua atingida, contou que esteve no local durante a madrugada e percebeu o solo completamente encharcado. Proprietário de um imóvel de quatro pavimentos, ele afirmou que todas as casas da área foram evacuadas preventivamente. Segundo ele, há um pequeno córrego próximo à rua, e a água começou a emergir do solo, deixando o terreno instável e movediço.
Durante a tarde desta terça-feira, a Defesa Civil de Minas Gerais emitiu novo alerta de chuva, que foi recebido nos celulares da população por volta das 14h27. A vibração dos aparelhos causou apreensão entre moradores e familiares que acompanham as buscas. Uma chuva forte voltou a atingir a região enquanto os trabalhos de resgate estavam em andamento.
Rios que cortam Juiz de Fora permanecem tomados por lama, e áreas elevadas da cidade apresentam grandes clareiras deixadas pelos deslizamentos. O cenário é de destruição em diversos pontos do município.
Diante da gravidade da situação, a prefeita Margarida Salomão decretou estado de calamidade pública ainda durante a madrugada desta terça-feira. A medida foi reconhecida pelo governo federal, permitindo maior mobilização de recursos e apoio emergencial.
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, informou que equipes da Defesa Civil nacional estão se deslocando para Juiz de Fora para atuar em conjunto com as autoridades locais no atendimento às vítimas.
Segundo a prefeita, o temporal provocou ao menos 20 soterramentos de imóveis no município, especialmente na região sudeste. A Defesa Civil municipal registrou 251 ocorrências relacionadas às chuvas, e os desabrigados estão sendo encaminhados para três escolas públicas adaptadas como abrigos.
O professor Miguel Felippe, do departamento de geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora, explicou que a geografia do município contribui para a gravidade dos episódios. Segundo ele, Juiz de Fora possui morros com mais de 100 metros de altura e uma rede de drenagem volumosa, o que favorece tanto o deslocamento de encostas quanto o transbordamento de rios.
O Governo de Minas alertou que moradores que receberam avisos de risco de deslizamento devem deixar imediatamente suas casas. A previsão indica a continuidade das chuvas até sábado (28). Autoridades destacam a necessidade de enfrentar o problema da ocupação irregular em áreas de risco, ressaltando o caráter previsível e devastador de tragédias como a registrada na Zona da Mata.
Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

