O jornalista e apresentador Cid Moreira, uma das vozes mais marcantes da televisão brasileira, faleceu aos 97 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos, decorrente de uma pneumonia. A notícia foi dada ao vivo por sua esposa, Fátima Sampaio, durante o programa “Encontro com Patrícia Poeta”, na TV Globo. Moreira estava internado em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e sua morte encerra uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à comunicação.
Cid Moreira ficou eternizado pela sua voz grave e marcante, que atravessou gerações de brasileiros, especialmente como âncora do “Jornal Nacional” (JN), da TV Globo, por quase 27 anos. Sua carreira teve início na rádio, nos anos 1940, e, ao longo do tempo, consolidou-se como uma das figuras mais reconhecíveis e respeitadas da mídia nacional.
Sua estreia no “Jornal Nacional” ocorreu em 1º de setembro de 1969, em meio ao auge da ditadura militar e sob censura rígida. O primeiro “boa noite” de Cid veio num período em que o país estava longe de viver em tranquilidade. Era o auge do Ato Institucional Número 5 (AI-5), e o governo militar controlava rigidamente as informações veiculadas pela imprensa. Naquela noite, Cid foi obrigado a transmitir uma mensagem tranquilizadora sobre a saúde do então presidente Costa e Silva, que viria a falecer poucos meses depois.
Com o avanço tecnológico da TV no Brasil, a Globo foi a primeira emissora a se consolidar como rede nacional, e o “Jornal Nacional” desempenhou um papel fundamental nesse processo. A voz de Cid Moreira tornou-se sinônimo de informação e credibilidade. Durante sua longa trajetória no JN, o apresentador noticiou grandes acontecimentos, como o início das transmissões em cores na televisão brasileira, em 1972, e momentos históricos, como o fim da ditadura militar e a redemocratização do país.
Nascido em Taubaté, São Paulo, em 1927, Cid começou sua carreira na Rádio Difusora de Taubaté aos 17 anos. Seu talento para a locução rapidamente o levou a novas oportunidades, e em 1949 ele se mudou para São Paulo, onde trabalhou na Rádio Bandeirantes e conheceu personalidades que marcariam a história da comunicação no Brasil. Em 1951, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Rádio Mayrink Veiga, uma das mais importantes do país à época.
Na Mayrink Veiga, Cid apresentou programas e conviveu com ícones da música brasileira, como Cármen Miranda, Elizeth Cardoso e Dorival Caymmi. Sua habilidade como locutor não se limitava à leitura de textos, ele também sabia interpretar, o que o destacava dos demais. Essa qualidade o levou à televisão, onde sua presença em frente às câmeras era complementada por sua voz inconfundível.
Cid Moreira enfrentou desafios pessoais e profissionais ao longo de sua carreira. Nos anos 1970, ele se submeteu a cirurgias corretivas no rosto após aplicações de silicone líquido que causaram deformidades. Em 1993, já consolidado como uma das figuras mais respeitadas da TV, posou para uma capa da revista Caras em uma banheira, o que quase lhe custou o emprego na Globo. Mesmo assim, manteve sua trajetória marcada pela seriedade e pela ética profissional.
Entre os momentos mais emocionantes de sua carreira está a cobertura de tragédias, como a morte de colegas de trabalho em um acidente aéreo em 1984. Ao longo de quase três décadas no “Jornal Nacional”, Cid também protagonizou momentos cômicos, como quando precisou matar uma mosca que insistia em pousar em seu rosto durante uma transmissão ao vivo.
Após deixar a bancada do “Jornal Nacional” em 1996, Cid continuou ativo, apresentando reportagens especiais no “Fantástico” e dedicando-se a projetos pessoais. Aos 92 anos, tornou-se influenciador digital ao lado de sua esposa, Fátima, compartilhando vídeos sobre temas variados, incluindo leituras da Bíblia e lembranças de sua trajetória na TV.
Nos últimos anos de vida, Cid enfrentou problemas de saúde, incluindo complicações nos rins, mas continuou ativo, fazendo exercícios e mantendo sua rotina com a ajuda de sua esposa. Em uma entrevista concedida em 2022, disse que tinha planos de viver até os 150 anos, sempre com bom humor e uma vitalidade impressionante para sua idade.
Sua morte encerra uma era na comunicação brasileira. A voz que durante anos deu “boa noite” aos brasileiros agora silencia, mas o legado de Cid Moreira, com sua dedicação à informação e ao jornalismo, continuará ecoando por gerações.
