(Edson Machado Monteiro, economista, ex-Vice-Presidente do Banco do Brasil)
Na última eleição, em 2018, parte representativa da população brasileira, enganada por fake news, empobrecida por reformas desumanas, revoltada por escândalos de corrupção e insuflada por discursos de ódio, elegeu, de maneira democrática, por meio das urnas eletrônicas, um energúmeno para a Presidência da República, cujas estripulias eram amplamente conhecidas, desde seus tempos de rapaz de uniforme militar. A maioria de nós sabia da tragédia que os resultados daquela eleição anunciavam.
De capitão insubordinado a deputado insignificante ao longo de quase trinta anos de mandato, metamorfoseou-se em um presidente medíocre, apoiado por uma base político-ideológica prepotente e administrativamente impúbere, que o exibiu a nu, desajeitado e inconsequente, incapaz de perceber ou seguir sequer a liturgia do cargo. Em todo o seu mandato, ocupou-se em manter a postura de campanha eleitoral com o poder na mão.
Assim empoderado, continuou a disseminar ódio, fazer apologia às armas, divulgar propaganda enganosa de medicamentos comprovadamente ineficazes, soterrar, a golpes de sigilos de 100 anos, escândalos de corrupção que envolvem sua família e – sua maior especialidade – agredir mulheres e adversários políticos, colocando “Deus acima de tudo e a família dele acima de todos”, deturpando até o patriotismo, à imagem e semelhança do discurso em voga na Alemanha nazista.
Não bastasse tudo isso e mais a vergonha que temos passado em nossas relações internacionais ou o seu no jeito intolerável de tratar pessoas cidadãs, voltamos a conviver com velhas práticas pouco republicanas, de conchavos para desvios de recursos públicos por meio de orçamentos secretos, de fraudes em processos licitatórios e de rachadinhas de salários de empregados fantasmas, utilizados para se locupletar ilicitamente, ao que se somam aquisições de inúmeros imóveis com dinheiro vivo.
Nesses quase quatro anos de desgoverno, de escândalos e crises institucionais geradas pelo destempero dessa pessoa nefasta e de seus comparsas, acumulamos alguns contêineres de problemas econômicos, sociais e políticos, que irão consumir muitos esforços dos próximos governos para serem debelados. O Brasil, que tinha saído do mapa da fome em 2014, voltou a ver o seu povo imerso na pobreza, com mais de 33 milhões de famintos atualmente.
Todos esses fatos nos levam a pensar que não era bem isso que população brasileira queria, mesmo diante da escolha desastrosa de 2018. Talvez os eleitores, naquele momento, tão desesperados e enfurecidos principalmente pela farsa da chamada Operação Lava Jato, tivessem apenas a intenção de punir a classe política, trazendo o que consideravam um político novo (outsider) para o principal cargo executivo do país, no intuito de demonstrar que “não há nada tão ruim que não possa piorar”.
Só que os resultados foram tão nefastos que desfiguraram o país num curtíssimo espaço de tempo. Mesmo assim, esse cenário, somado à administração irresponsável da coisa pública e à volta da inflação, que assola o poder de compra dos trabalhadores, não foi suficiente para que a sociedade afastasse de vez a possibilidade de se dar continuidade a essa idiossincrasia tão maléfica. Temos cerca de 30% dos eleitores brasileiros que ainda se manifestam favoráveis à manutenção desse câncer no governo, com bravatas e palavras de ordem que nos causam náuseas. E há ainda outros 15% que ainda se apresentam como indecisos.
Ainda temos tempo para, quem sabe, convencer familiares, vizinhos e amigos que estão nesses estratos a reavaliarem suas posições. Temos que restaurar a confiança e a democracia, começando pela luta contra esses votos de cabresto remanescentes do coronelismo agrário, dos frequentadores do cercadinho, que acompanham motociatas pelo Brasil afora, e dos empresários oportunistas que sonham com a relação capital-trabalho sem lei.
Em menos de um mês poderemos começar a trabalhar para reconstruir um novo país, que – após 200 anos de República – poderá, enfim, planejar os próximos dois séculos de forma mais humanitária, sem miséria e sem fome, e proporcionar mais oportunidades e igualdade às pessoas, sem pelourinhos e sem calabouços, com mais educação, mais saúde e mais cultura!
Um país reconstruído, que nos permita resgatar nosso perdido orgulho de sermos brasileiros, ostentando novamente a bandeira verde e amarela como símbolo de uma nação.

