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Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Bolsonaro está com medo de ser preso. Sua preocupação procede, pois ele, mais do que qualquer outro, sabe da quantidade e da gravidade dos crimes que cometeu contra o Brasil e o povo brasileiro. Crimes não só dele, uma vez que foram antecedidos e acobertados por figuras do tipo de Aécio Neves, Eduardo Cunha, Augusto Aras e Arthur Lira.

Nessas semanas que nos separam do bicentenário da Independência, era para o país estar envolvido na preparação de uma grande festa, onde as conquistas nacionais seriam exaltadas e mostradas ao mundo. Foi isso, aliás, o que aconteceu em 7 de setembro de 1922, com a Exposição Universal, no Rio de Janeiro, capital da República, onde teve lugar a primeira transmissão pública do rádio, que incluiu o Brasil no seletíssimo grupo de países que passava a contar com aquele novo meio de comunicação.

Ao contrário de qualquer comemoração, Bolsonaro tem exortado seus seguidores a saírem às ruas em apoio ao seu governo. E, a julgar pelas insinuações sempre presentes em suas falas, não descarta nem mesmo o uso de violência contra adversários. Não por acaso, vem sendo recorrentes as informações dando conta do risco de grupos de extrema-direita prepararem atentados para jogar a responsabilidade na esquerda ou mesmo militares comprarem equipamentos para espionar opositores. O recurso à violência pode ser o único à disposição de quem não tem nada a comemorar e quer se manter no poder.

Bolsonaro e turma, no entanto, não contavam com a reação rápida e certeira da sociedade civil, com o Brasil passando a viver momentos que em muito lembram aqueles que antecederam ao fim da ditadura militar. Naquela época, a população brasileira foi às ruas para exigir eleições diretas para presidente da República que, na prática, punha fim ao golpe de 1964. Na próxima quinta-feira (11/08), milhares de brasileiros estarão de volta às ruas para, em todas as capitais, exigirem respeito à democracia e às urnas eletrônicas. Democracia e urnas que Bolsonaro tem atacado diuturnamente.
Tudo começou com um manifesto denominado Carta aos Brasileiros e Brasileiras, iniciativa de ex-estudantes da Faculdade de Direito da USP, que já conta com mais de 700 mil assinaturas e não para de crescer. Entre os seus signatários estão empresários, banqueiros, artistas, intelectuais, trabalhadores, estudantes e gente comum. Ele será lido em São Paulo e nas principais capitais e cidades brasileiras simultaneamente na quinta-feira.

A Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP), agora sob a direção do empresário mineiro, Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José de Alencar, vai lançar, também na próxima quinta-feira, manifesto no mesmo sentido, assinado por centenas de entidades, entre elas a Febraban e a CUT. Detalhe: Bolsonaro teria um evento na Fiesp no mesmo dia, mas a assessoria da presidência da República se encarregou de cancelar sua presença.

A exceção de alguns dos mais atrasados setores da economia brasileira, como uma turma do agronegócio no Centro-Oeste, que está prometendo um salário extra para os trabalhadores se Bolsonaro for reeleito, ninguém mais quer saber do ex-capitão expulso do Exército. O nome certo disso é compra de votos, como compra de votos foi o que o Congresso Nacional legalizou (inclusive estabelecendo o estado de emergência), ao aprovar a distribuição de auxílios e vouchers para setores da população somente até dezembro. Práticas deste tipo fariam corar até aqueles velhos “coronéis”, que compravam votos com pares de botas. O que mostra como o Brasil com Bolsonaro regrediu sob todos os aspectos civilizatórios.

Sem ter participado de nenhuma guerra formal, quase 700 mil brasileiros já morreram vítimas do negacionismo oficial contra a vacina para o covid-19. Sem estar em guerra, o Brasil viu sua economia regredir à mera exportação de produtos primários (soja e minerais). Sem estar em guerra, o Brasil entregou o pré-sal para os interesses estrangeiros, em especial os estadunidenses, e segue destruindo a Petrobras. Sem estar em guerra, o Brasil abriu mão de sua principal estatal de energia elétrica, Eletrobras. Sem estar em guerra, 33 milhões de brasileiros passam fome. Sem estar em guerra, metade da população está desempregada ou subempregada.

Como isso foi possível? A classe dominante brasileira tem total responsabilidade neste processo, pois foi peça-chave para derrubar a ex-presidenta Dilma Rousseff e implantar no país uma ditadura de tipo novo, que contou com o apoio do parlamento, da justiça e da mídia. O nome técnico disso é mudança de regime via guerra híbrida, um assunto da maior atualidade, porém praticamente desconhecido entre nós.

Sem o apoio da mídia corporativa, que ainda hoje passa pano para Bolsonaro e não mede esforços para obter recursos e vantagens dele, não teria sido possível, por exemplo, convencer tantas pessoas (sem nenhuma prova), que Lula era ladrão e que o Brasil estava mergulhado em uma grave crise econômica, quando todos os indicadores em 2016 apontavam para o contrário. Curioso que agora, quando o país vive uma crise gravíssima, esta palavra tenha sumido do noticiário. O máximo que jornais, emissoras de rádio e de TV falam é em problemas pontuais como fome, inflação, sem nunca mencionar o que os golpistas fizeram para chegarmos a este caos.

Dificilmente Bolsonaro alcançará sucesso em seus intentos golpistas em 7 de setembro e mesmo depois. Com quem ele manteria o poder, já que praticamente todos os que o apoiavam e lhe devem a vitória estão contra? Não por acaso, o oportunista Romeu Zema faz de tudo para mantê-lo à distancia nestas eleições.

Bolsonaro deverá ser julgado por seus crimes, para que sirva de lição a todos os espertos e aventureiros deste país. A comparação que ele próprio faz de si com a golpista boliviana Jeanine Añez procede. A Bolívia julgou e prendeu os golpistas de lá. É preciso fazer o mesmo aqui.


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