Ângela Carrato – Jornalista. Professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG. Membro do Conselho Deliberativo da ABI

O que alguns julgavam impossível aconteceu. Bolsonaro está preso e já passou sua primeira noite de cumprimento da pena na prisão, em sala da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.

A sala foi adaptada e conta com cama de solteiro, televisão e ar condicionado. As visitas são restritas e precisam ser autorizadas.

O início do cumprimento da pena surpreendeu Bolsonaro e filhos. Depois da tentativa frustrada de fuga ao queimar a tornozeleira, o capitão queimou também a possibilidade de permanecer em prisão domiciliar, sob o argumento de que “está muito doente”.

Na prisão, Bolsonaro terá médico à disposição 24 horas. Não os médicos de sua confiança, mas indicados pela Justiça. Quem sabe assim, finalmente, conheceremos sua real situação de saúde, que sempre piorou ou melhorou de acordo com as próprias conveniências.

A esposa Michelle já foi visitá-lo na nova condição. Pelo visto, ela passará a funcionar como pombo-correio, levando e trazendo mensagens do ex-capitão aos correligionários mais próximos e vice-versa.

Mesmo Bolsonaro fazendo dramáticos apelos do tipo “não me abandonem”, politicamente ele sabe que está acabado. Governadores de extrema-direita como Tarcísio de Freitas (SP), Ratinho Júnior (PR), Ronaldo Caiado (GO), Cláudio Castro (RJ) e Romeu Zema (MG) vão continuar a citá-lo vez por outra, mas sem esperanças de serem ungidos por ele.

A exceção de Tarcísio de Freitas, nenhum desses senhores possui condição mínima para disputar a presidência da República com Lula em 2026. Faltam votos ou mesmo condição física. Caiado, como se sabe, está internado em São Paulo devido a problemas cardíacos.

Tarcísio, que aparece bem atrás de Lula em todas as pesquisas de intenção de voto, vai pensar duas vezes antes de deixar o governo de São Paulo, para se aventurar a um voo cego, em que pode ficar sem cargo e sem a indispensável imunidade.

Esses governadores estão profundamente frustrados por Bolsonaro não ter anunciado, antes de ser preso, o nome que vai apoiar na disputa presidencial em 2026. Já Bolsonaro esperava que a extrema-direita e o Centrão no Congresso Nacional conseguissem aprovar projeto concedendo-lhe anistia.

Após a prisão de Bolsonaro, Tarcísio disse que a escolha do candidato de oposição a Lula será feita com tranquilidade. Vale dizer: está rifando a presença de qualquer Bolsonaro na possível chapa.

A tal anistia não rolou e nem vai rolar, especialmente num Congresso ultra desmoralizado como o atual, onde o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, está processando um sindicalista de seu estado, a Paraíba, pela entidade que dirige ter pago 10 outdoors criticando os que votaram a favor da PEC da Blindagem, também conhecida como PEC da Bandidagem.

Derrotada no Senado, a PEC exigia autorização do Legislativo para abertura de ações penais, limitando a prisão de parlamentares a situações de flagrante e crimes inafiançáveis. Ou seja: se aprovada, os nobres parlamentares seriam transformados em cidadãos de primeiríssima classe, praticamente inalcançáveis pela lei.

Não é nada confortável, também, a situação do presidente do senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Ele resolveu peitar o presidente Lula ao se colocar contra a indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para a vaga aberta no STF com a aposentadoria precoce de Luís Barroso.

Oficialmente, Alcolumbre ficou descontente, porque Lula preteriu seu candidato para o cargo. A prerrogativa desta indicação é de Lula, não dele. O Senado tem a competência para avaliar as qualidades técnicas do indicado, ao passo que Alcolumbre quer transformar a questão em guerra.

Quem conhece o estilo de fazer política de Alcolumbre, sempre pressionando e de olho nos próprios interesses, garante que o problema passa longe da pessoa de Messias. O que está em pauta é a negociação que pretende entabular com o Planalto, envolvendo a manutenção das emendas parlamentares (secretas e pix), passando pelos problemas que enfrenta no Amapá, onde indicado seu no fundo de pensão do governo do estado está envolvido até os dentes em fraude do recém-liquidado banco Master.

Pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), realizada entre 19 e 23 de novembro, revela um quadro amplamente negativo sobre o desempenho do Congresso Nacional e deveria servir como alerta para Motta e Alcolumbre.

Para 40,8% dos ouvidos, o Congresso atrapalha o desenvolvimento do Brasil, enquanto apenas 19,8% acreditam que ele contribui para o avanço do pais.

Motta e Alcolumbre não comparecem à cerimônia em que Lula sancionou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais e isenção parcial para aqueles que têm renda de até R$ 7.350 mensais.

Como na cela de Bolsonaro tem TV, ele deve ter visto a notícia.

Viu e não gostou, pois sempre foi contra qualquer política pública voltada para a melhoria da vida do cidadão comum.

Na cela terá tempo de sobra para assistir TV e se irritar com as notícias.

Já sabe, por exemplo, que os generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto foram presos no mesmo dia que ele e iniciaram o cumprimento de suas penas.

Sem Bolsonaro, os filhos vão de mal a pior. O deputado “internacional” Eduardo deve permanecer nos Estados Unidos. Indiciado em inquérito, é acusado de articular sanções ao Brasil e às autoridades brasileiras e responderá judicialmente no STF. Se condenado, perde o mandato e pode ser preso se retornar ao país.

O senador Flávio também corre o risco de ser investigado por atos antidemocráticos ao organizar a tal vigília de oração pela saúde do pai. Vigília que possivelmente tinha como objetivo facilitar a fuga, se a queima da tornozeleira tivesse dado certo.

Carluxo e Jair Renan estão fora do jogo e praticamente sumiram do mapa nos dias que antecederam à prisão do pai.

Michelle sonha em ser a ungida, mas tem a resistência dos aliados de Bolsonaro e do próprio. Politicamente ele não confia nela e os aliados não consideram conveniente sua presença na chapa.

A família do capitão nunca trabalhou e sempre viveu da política, todos posando como outsiders.

Nos 580 dias em que permaneceu preso, em uma cela parecida com a de Bolsonaro na carceragem da Política Federal em Curitiba, Lula leu muito. Ao todo foram 80 livros que, segundo ele mesmo diz, contribuíram para refletir e buscar compreender cada vez mais o Brasil e o mundo. Leituras, exercícios físicos e a certeza de que iria conseguir provar sua inocência constituíram-se no combustível para vencer aquele período sombrio.

Bolsonaro nunca leu um livro e sempre fez apologia da ignorância, da burrice e da violência.

Também nunca teve interesse em estudar. Uma das possibilidades para o preso reduzir a pena é fazer algum curso formal (fundamental, médio ou superior).

Acho pouco provável vê-lo assistindo aulas, mesmo on-line.

Enfim, a monotonia de seus dias talvez possa ser vencida fazendo palavras cruzadas.

As mais fáceis, claro.