Angela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Há quase um mês, pessoas supostamente inconformadas com o resultado da eleição, que deu vitória ao ex-presidente Lula, interrompem a circulação em rodovias federais e outro tanto, pelo mesmo motivo, está acampada em frente aos quartéis em várias cidades brasileiras.
Em que pese a violência destes atos, com seus integrantes botando fogo em veículos, agredindo cidadãos comuns, violando o direito de ir e vir e causando prejuízos milionários à economia, até o momento a mídia corporativa brasileira não se dignou a designar essa turma pelo que realmente é: golpista e terrorista.
Se inicialmente alguém podia acreditar que se tratava de manifestação espontânea, não há mais dúvida de que o presidente derrotado e parcela de seus apoiadores estão por trás destes atos.
Bolsonaro nunca escondeu que tentaria utilizar as críticas (infundadas) contra a segurança das urnas eletrônicas para contestar o resultado das eleições, caso não fosse o vitorioso. É esse roteiro que está cumprindo, tendo apenas o cuidado de não assumir a linha de frente, pois a partir de janeiro não terá mais foro privilegiado e muitos processos já o aguardam na Justiça.
Através de setores do agronegócio e também de militares, Bolsonaro está tentando tumultuar o processo da transição e criar o caos.
A Polícia Federal já possui uma lista de dezenas de nomes de empresários que estão financiando estas manifestações. Ninguém em sã consciência acredita que caminhoneiros e pessoas que vivem do trabalho têm como ficar semanas a fio fazendo barreiras nas estradas contra o “perigo comunista”. Da mesma forma que conhecendo-se os militares brasileiros, não dá para acreditar que, de repente, todos viraram defensores da “livre manifestação” inclusive em áreas de segurança nacional. Até nota de apoio a essas manifestações, assinadas pelos comandantes das três armas, foram divulgadas. Logo eles que, constitucionalmente, deveriam ficar longe da política e aterem-se às suas funções.
Como as manifestações golpistas vinham minguando, a nova cartada de Bolsonaro foi valer-se de seu partido, o PL, e do oportunista Waldemar da Costa Neto, seu dirigente, para entrar com uma ação no TSE pedindo a anulação dos votos em determinadas urnas no segundo turno das eleições.
O absurdo da ação era tamanho, que levou o ministro Alexandre de Morais, presidente do TSE, a não aceitá-la e determinar o pagamento de multa de R$ 22 milhões pelo PL e os dois outros partidos parceiros na empreitada.
A título de exemplo, se o PL tivesse mesmo qualquer preocupação com a lisura das urnas – risco descartado até pela própria auditoria realizada pelos militares – por uma questão de coerência teria que pedir anulação dos dois turnos. Claro que o PL não fez e nem fará isso, porque seu objetivo é agir de forma seletiva, a fim de que o derrotado pudesse se apresentar como vitorioso.
No fundo, nem Waldemar da Costa Neto acreditava que a ação pudesse surtir efeito, mas seu objetivo era outro: alimentar as manifestações golpistas. Em síntese, tumultuar.
Este roteiro que Bolsonaro e os golpistas estão tentando colocar em prática não é sequer novo.
É o mesmo adotado por Donald Trump nos Estados Unidos, quando perdeu as eleições em 2020.
Agora, depois de desempenho outra vez aquém do esperado pelo Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, Trump busca fortalecer-se a partir de aliados como Bolsonaro.
O fato de Steve Bannon, o assessor de Trump, recomendar a Bolsonaro contestar o resultado das eleições ter sido publicado pelo jornal Washington Post, na edição de 23/11, dá bem a ideia de como a questão é crucial também para o presidente Joe Biden. Como se sabe, o Washington Post é considerado porta-voz do Partido Democrata e também do Pentágono, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
Em outras palavras, só ingênuos podem acreditar que os manifestantes brasileiros e seus financiadores tenham qualquer compromisso democrático. Ao contrário. Fazem, em maior ou menor grau, o jogo que interessa aos donos do mundo, aquela meia dúzia de trilionários que, em reuniões anuais em elegantes cidades europeias ou estadunidenses, pretendem mandar no planeta.
Como em outras épocas aqui no Brasil, a conversa sobre “ameaça comunista” era apenas isso: conversa para enganar o “gado”. Conversa para manter a dominação capitalista, reforçada pelo neoliberalismo, sobre países que não aceitam mais esta condição. Países que elegeram o desenvolvimento, a inclusão social e a soberania como referências.
Prova disso é que no Brasil só políticos progressistas enfrentam problemas com a oposição.
O PT nunca questionou as vitórias de Collor, Fernando Henrique Cardoso ou mesmo a de Bolsonaro, em 2018. Nesta última teria motivos de sobra para questionar. Haja vista que Lula foi preso, sem crime, para não poder disputar e que as fake news funcionaram aceleradamente a favor do capitão reformado.
No passado, a vitória do progressista Juscelino Kubitschek também foi contestada. Mesmo a eleição sendo em um só turno, a oposição da época queria exigir que ele tivesse metade mais um dos votos. Até revoltas militares aconteceram entre outubro e os primeiros dias após a posse, em janeiro.
Os golpistas perderam. A atuação do general Henrique Lott foi fundamental para derrotá-los em duas rebeliões: Jacareacanga e Aragarças. Lott foi nomeado o ministro da Guerra de JK. O ministério da Defesa não existia e menos ainda a determinação de que fosse ocupado por um civil, como agora.
JK fez um dos melhores governos que o Brasil já teve.
Contestação à sua posse também enfrentou o vice João Goulart, que teve na figura do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, um defensor de primeira hora da legalidade, celebrizando-se pela constituição de uma rede de rádios que foi fundamental para enfrentar e desmascarar os golpistas.
Quando se observa os dias atuais, é importante lembrar que não foi só Lula e o PT que venceram as eleições. A frente ampla montada por ele, que inclui partidos de esquerda, de centro e até de direita, descarta qualquer possibilidade de tentar identificá-lo ao “comunismo”.
O Tio Sam – fundamental para o sucesso de qualquer golpe de estado no Brasil -, está no mínimo dividido.
A mídia corporativa continua contra Lula, mas também não ama Bolsonaro.
Os militares, claro, gostariam de manter suas mamatas e privilégios. São mais de oito mil ocupando cargos civis no governo federal. Alguns chegaram a receber mais de R$ 1 milhão por mês durante a pandemia. Que o diga o general ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazzuelo.
Nos últimos dias não falta quem compare a ação de Alexandre de Morais à do general Lott. A comparação não deixa de ser complicada, uma vez que são contextos muito diferentes.
Seja como for, uma coisa é certa: os problemas enfrentados por Lula, antes mesmo de assumir, indicam que o país estará longe, nos próximos quatro anos, de ter uma oposição minimamente democrática.
Distante de qualquer patriotismo, esses golpistas vão jogar pesado no terceiro, quarto, quinto e tantos mais turnos, pois o objetivo é tentar impedir que Lula faça um bom governo e consequentemente desmonte as falácias de que o neoliberalismo é a única alternativa para o Brasil.
Por saberem que não é, esses golpistas/terroristas estão tão assanhados. E apavorados.
Bem lembrou o ministro Barroso ou chamá-los de manés perdedores. Mas só isso não bastará. Além de ganhar, de fazer um excelente governo, Lula precisará ter a população mobilizada e consciente ao seu lado.
A luta está apenas começando.
