Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) interpretaram o pedido de Luiz Fux para trocar de colegiado como uma “fuga” estratégica. A mudança da Primeira para a Segunda Turma é vista como uma tentativa de sair do isolamento criado após seu voto no julgamento da trama golpista, onde defendeu a absolvição do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A leitura de colegas é que Fux busca se realinhar com ministros que possam ter votos mais convergentes com os seus, como André Mendonça e Kássio Nunes Marques, ambos indicados ao STF por Bolsonaro e membros da Segunda Turma. “O movimento é visto como uma busca por um ‘ambiente’ mais favorável no colegiado”.

A avaliação dos membros da Primeira Turma é que Fux fez um cálculo de “mal menor”. Mesmo tendo seu principal desafeto, o ministro Gilmar Mendes, na Segunda Turma, Fux optou pela mudança por se sentir sem ambiente e isolado da maioria dos integrantes de seu colegiado atual.

O ofício com o pedido de mudança veio à tona na tarde de terça-feira (21), de forma surpreendente, durante o julgamento do núcleo quatro da trama golpista, que envolve os acusados de disseminar notícias falsas para criar instabilidade institucional. Os ministros da Primeira Turma foram pegos de surpresa e não receberam qualquer explicação ou justificativa de Fux.

Após o julgamento, os magistrados se reuniram em uma sala próxima ao local da sessão, mas Fux não compareceu. Colegas relatam que esse tem sido seu comportamento desde o voto de 12 horas que proferiu para absolver Bolsonaro em setembro.

Os ministros enfatizam que o problema central não foi a divergência do voto de Fux, mas sim a maneira como ele apresentou sua posição. A leitura é que o colega não proferiu seu voto em um rompante, mas sim trabalhou detalhadamente em uma fala que objetivamente abastece o discurso de Bolsonaro e seus aliados nos ataques ao STF e aos seus ministros.

Integrantes da Corte também apontam outras ações de Fux que têm deteriorado sua relação com a maioria dos colegas. Um dos exemplos citados é o pedido de vista que paralisou o julgamento que acusa Sergio Moro de calúnia contra Gilmar Mendes. Fux parou o processo mesmo após a formação de maioria no colegiado para manter o senador paranaense como réu. “A sequência de ações sugere uma desconexão crescente com o restante da Corte”.

Foto: Rosinei Coutinho/STF


Avatar

administrator