Uma pesquisa divulgada nas redes sociais nesta segunda-feira apontou vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno da disputa presidencial. O levantamento, no entanto, foi divulgado pela consultoria mexicana Áltica Research sem registro prévio na Justiça Eleitoral brasileira, procedimento exigido pela legislação em anos eleitorais.

De acordo com o relatório, Flávio aparece com 48% das intenções de voto, enquanto Lula soma 47%, diferença situada dentro da margem de erro de 2,8 pontos percentuais. A divulgação ocorreu por meio da rede social X e foi inicialmente revelada pelo portal Jota, especializado na cobertura do Judiciário, sendo posteriormente confirmada.

A legislação eleitoral determina que todas as pesquisas de opinião relacionadas a eleições sejam registradas no Tribunal Superior Eleitoral antes de sua divulgação. O descumprimento dessa regra pode resultar em multa que varia entre “R$ 53.205” e “R$ 106.410”, aplicada aos responsáveis pela veiculação dos dados.

Questionado sobre eventuais providências em relação ao caso, o TSE não respondeu objetivamente. Em nota, a Corte limitou-se a destacar as sanções previstas na legislação e informou que, no próximo mês, realizará audiências públicas para receber sugestões da sociedade voltadas ao aperfeiçoamento das resoluções que irão orientar as Eleições de 2026.

Especialista em direito eleitoral e professor da FGV-SP, Fernando Neisser ressaltou que pesquisas divulgadas em ano eleitoral têm impacto direto no ambiente político. Segundo ele, levantamentos desse tipo influenciam a cobertura da imprensa, o comportamento do eleitorado e até a aproximação de doadores, podendo beneficiar ou prejudicar campanhas.

“Outros países adotam um sistema semelhante, que permite a fiscalização das pesquisas. Isso ocorre para evitar que relatórios fraudulentos influenciem de forma indevida a corrida eleitoral. No caso em discussão, vemos uma empresa estrangeira veiculando uma pesquisa sem registro. O fato de ser mexicana não a isenta de responder perante a Justiça brasileira”, afirmou.

A Áltica Research informa que a sondagem foi realizada entre os dias 23 e 25 de janeiro, com mil e duzentos entrevistados acima de dezoito anos, distribuídos por todos os estados. Os dados foram coletados por meio de um painel online, com recrutamento via internet, utilizando metodologia conhecida como “river sampling”.

No documento, a consultoria afirma que o estudo foi executado e financiado de forma independente. Procurada para comentar a ausência de registro no TSE e esclarecer detalhes metodológicos, a empresa não respondeu aos questionamentos até a publicação da reportagem.

A metodologia utilizada também foi alvo de críticas. O estatístico Raphael Nishimura, diretor de amostragem na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, destacou problemas recorrentes em pesquisas baseadas em painéis online.

“Há vieses de seleção, porque pessoas mais engajadas politicamente tendem a responder esse tipo de pesquisa. Além disso, existem questões sérias de qualidade dos dados, desde respondentes desatentos até a presença de robôs, que estão cada vez mais difíceis de identificar”, afirmou.

Foto: Antônio Augusto/Secom/TSE


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