A necessidade de integrar áreas verdes ao planejamento urbano e aproximar as cidades da natureza esteve no centro dos debates da terceira edição do Seminário Internacional Transmutar, realizado em Brumadinho, Minas Gerais. Pesquisadores, ambientalistas, lideranças comunitárias e especialistas de diferentes países defenderam que os centros urbanos precisam incorporar florestas, rios e sistemas ecológicos ao seu desenvolvimento para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas e melhorar a qualidade de vida da população.

Um dos destaques do encontro foi o neurobiólogo e escritor italiano Stefano Mancuso, reconhecido internacionalmente pelos estudos sobre a inteligência das plantas. Durante sua participação, ele apresentou o conceito das fitópolis, modelo urbano inspirado na organização dos sistemas vegetais e que propõe uma transformação profunda na forma como as cidades são concebidas e administradas.

Segundo Mancuso, as cidades modernas foram construídas priorizando exclusivamente as necessidades humanas e ignorando a importância das relações ecológicas. Para ele, o futuro do urbanismo depende de uma convivência mais equilibrada entre seres humanos e natureza, reconhecendo que todos fazem parte de um mesmo sistema vivo.

O pesquisador defende que uma cidade sustentável deve possuir ampla cobertura vegetal, reduzir significativamente áreas impermeabilizadas e ampliar a presença de árvores, jardins e florestas urbanas. De acordo com sua visão, a simples substituição de parte do asfalto por áreas arborizadas já seria capaz de melhorar a qualidade do ar, reduzir temperaturas e aumentar o bem-estar da população.

Mancuso também sustenta que a vegetação deve estar presente dentro dos edifícios e integrada ao cotidiano urbano. Para ele, as plantas desempenham funções essenciais na regulação climática, na produção de oxigênio e na manutenção dos ecossistemas, sendo fundamentais para enfrentar os efeitos do aquecimento global.

O ecólogo Fabio Scarano, curador do Museu do Amanhã, reforçou a importância de ampliar o reconhecimento da inteligência presente em todos os organismos vivos. Segundo ele, a valorização da vida vegetal ajuda a mudar a forma como a sociedade enxerga a natureza, deixando de tratá-la apenas como recurso econômico e passando a reconhecê-la como elemento indispensável à sobrevivência humana.

Outro participante do seminário, o arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves, apresentou estudos sobre antigas formas de urbanização desenvolvidas por povos indígenas na Amazônia. As pesquisas mostram que sociedades que habitaram a região há milhares de anos construíram assentamentos integrados à floresta, sem promover a destruição dos ecossistemas ao redor.

Para o pesquisador, essas experiências demonstram que é possível desenvolver cidades sem excluir a natureza. Ele observou que muitos centros urbanos atuais eliminaram rios, áreas verdes e florestas para dar lugar à expansão imobiliária, criando problemas ambientais e sociais que afetam principalmente as populações mais vulneráveis.

O seminário também homenageou o pensamento do líder quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo. Seus conceitos de confluência e transfluência inspiraram os debates sobre formas mais harmoniosas de convivência entre seres humanos, natureza e diversidade cultural.

A líder quilombola Joana Maria destacou que a preservação ambiental depende da construção de relações de cuidado com o território. Segundo ela, proteger rios, florestas e áreas naturais significa preservar modos de vida, tradições e formas de existência construídas ao longo de gerações.

A pesquisadora Sue Anne Costa, do Museu Emílio Goeldi, defendeu a necessidade de um processo de reencantamento com a natureza. Para ela, muitas decisões atuais são tomadas com base apenas em critérios econômicos e produtivos, deixando de lado valores culturais, espirituais e ambientais fundamentais para a construção de um futuro sustentável.

Realizado no Instituto Inhotim, o seminário reuniu reflexões sobre biodiversidade, cultura, urbanismo e justiça climática. O local é considerado um dos principais espaços de conservação ambiental e arte contemporânea do país, mantendo áreas de floresta regenerada, jardins botânicos e projetos científicos voltados à preservação da fauna e da flora brasileiras.

Ao final dos debates, os participantes reforçaram a ideia de que o enfrentamento da crise climática exige uma mudança profunda na forma como as cidades são planejadas. A integração entre urbanismo e natureza foi apresentada não apenas como alternativa ambiental, mas como condição necessária para garantir qualidade de vida, equilíbrio ecológico e desenvolvimento sustentável para as próximas gerações.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil


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