A Polícia Federal apura um esquema de desvio de recursos públicos envolvendo repasses de emendas parlamentares a municípios cearenses. A investigação aponta que o grupo criminoso liderado por aliados do deputado federal Júnior Mano (PSB-CE) cobrava até 12% de retorno dos valores indicados por parlamentares para liberar os recursos. Segundo a PF, esse percentual era tratado como “pedágio” ou “imposto” e seria uma prática sistemática de corrupção.

Além das emendas atribuídas a Júnior Mano, a investigação menciona verbas indicadas por outros parlamentares do Ceará, entre eles o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT), além de Eunício Oliveira (MDB) e Yuri do Paredão (MDB). Nenhum dos três foi alvo direto da operação realizada nesta terça-feira (8), mas a Polícia Federal pediu diligências específicas para apurar a veracidade e a finalidade dessas indicações.

Em nota, Guimarães negou qualquer envolvimento. “Reafirmo o fato de que não destinei emendas parlamentares à localidade de Choró. Inclusive, nas eleições municipais mais recentes, disputamos contra o atual prefeito, tendo nosso candidato do PT sido derrotado”, declarou. Sobre Canindé, disse que “uma simples consulta ao Siafi comprova que não destinei nenhuma emenda parlamentar nos anos de 2024 e 2025”.

A assessoria de Eunício Oliveira informou que ele “destina emendas para obras em dezenas de municípios cearenses, de forma transparente e de acordo com a legislação”. A emenda para Canindé, segundo a nota, foi indicada apenas em maio, e o parlamentar teria solicitado a suspensão da transferência ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Yuri do Paredão, por sua vez, afirmou que “o fato de todos os recursos estarem disponíveis no Portal da Transferência da Câmara dos Deputados demonstra a seriedade e a responsabilidade com que o deputado Yury conduz suas ações”.

A operação, autorizada pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teve como alvo principal o deputado Júnior Mano. A PF cumpriu mandados de busca e apreensão em seu gabinete na Câmara, em seu imóvel funcional em Brasília e em sua residência em Fortaleza.

De acordo com a investigação, o deputado exercia papel central na manipulação de pleitos eleitorais, tanto por meio da compra de votos quanto pelo desvio de recursos públicos em benefício de empresas ligadas ao grupo criminoso.

As mensagens obtidas pela PF indicam que Carlos Alberto Queiroz, o Bebeto — eleito prefeito de Choró, mas impedido de tomar posse — atuava como operador do esquema. Ele aparece em conversas negociando o envio de emendas a prefeituras mediante o pagamento de propinas. A PF classificou a prática como “institucionalizada de corrupção”.

Além da cobrança do percentual, a investigação apura o favorecimento de empresas ligadas aos operadores por meio de transferências voluntárias. Bebeto menciona, em trocas de mensagens, que parlamentares como José Guimarães e Eunício Oliveira teriam destinado verbas para municípios do Ceará.

Em uma dessas conversas, ele cita uma emenda atribuída a Guimarães voltada para saúde e pavimentação. Em outra, relata ter ouvido áudios em que Eunício teria informado sobre R$ 1 milhão, liberado para Canindé, enquanto Guimarães teria direcionado R$ 2 milhões para Choró.

A Polícia Federal também ouviu a ex-prefeita de Canindé, que relatou ter se recusado a devolver 10% do valor de duas emendas supostamente enviadas por Guimarães. Essa recusa, segundo ela, teria motivado seu rompimento com o grupo de Júnior Mano.

No caso de Yuri do Paredão, os investigadores identificaram mensagens trocadas com Bebeto, incluindo uma em que o deputado questiona sobre aumento do limite de investimento em saúde em “alguma cidade sua” — expressão que, segundo a PF, sugere conhecimento do funcionamento do esquema.

Foto: Marina Ramos / Câmara dos Deputados

 


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