A Polícia Federal (PF) estuda desmembrar o inquérito sobre a chamada “Abin Paralela” para abrir uma investigação específica focada no atual comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Com isso, seria possível concluir nos próximos dias o relatório principal, enviá-lo ao Supremo Tribunal Federal (STF) e solicitar a abertura de uma nova apuração dedicada ao possível uso irregular de instrumentos de espionagem durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
O inquérito foi aberto em março de 2023, sobre a utilização de um sistema secreto para monitorar pessoas durante o governo de Jair Bolsonaro. As investigações apontaram a existência de uma estrutura paralela dentro da Abin, utilizada para perseguir adversários políticos da gestão anterior.
Durante o curso das apurações, o atual diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, e o seu adjunto, Alessandro Moretti, passaram a ser alvo da PF. Relatos indicam que ambos teriam tentado interferir nas investigações. Em uma busca e apreensão na sede da agência, Corrêa teria se irritado com a operação e sugerido uma intervenção na corregedoria. Também foram registrados esforços para dificultar o acesso da PF a equipamentos e documentos relevantes.
Mais recentemente, surgiram indícios de que práticas ilegais de monitoramento podem ter ultrapassado a gestão Bolsonaro. Um agente da Abin revelou em depoimento ter utilizado um “e-mail espião” para invadir computadores de autoridades paraguaias, entre elas integrantes da Presidência e do Congresso. Segundo ele, a ação visava obter informações sobre a venda da energia da Usina de Itaipu, com autorização do então chefe da agência no governo Bolsonaro e posterior aval de Luiz Fernando Corrêa, já durante a atual gestão.
Corrêa e Moretti prestaram depoimento simultaneamente à PF e negaram qualquer irregularidade. Ainda assim, segundo fontes ligadas às investigações, é provável que Corrêa seja indiciado por tentativa de obstrução de Justiça.
A situação gerou preocupação no Palácio do Planalto. O presidente Lula convocou Corrêa e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para uma reunião tensa, que auxiliares presidenciais descreveram como uma espécie de “acareação”. Lula manifestou temor de que sua gestão seja envolvida nas irregularidades, especialmente no uso do sistema de espionagem FirstMile, empregado durante o governo anterior.
Separar a apuração em dois inquéritos permitirá concluir mais rapidamente o processo relativo à gestão Bolsonaro, ao mesmo tempo em que delimita claramente as investigações sobre a atual direção da Abin, evitando misturar as responsabilidades.
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

