Com forte simbolismo político e a presença de autoridades de peso do Executivo e do Legislativo, o prefeito do Recife, João Campos, foi oficializado neste domingo como presidente nacional do PSB. O ato, realizado em Brasília, contou com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), consolidando a ascensão de João à liderança nacional da legenda que hoje ocupa a vice-presidência da República e comanda dois ministérios no governo federal.
João Campos, de 31 anos, sucede Carlos Siqueira no comando do PSB e dá continuidade a uma tradição familiar profundamente enraizada na história do partido. Ele é neto de Miguel Arraes e filho do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, que também presidiu o PSB e faleceu em 2014. Em sua fala de posse, João prometeu dedicação integral à legenda. “Lembrando da história e da memória de meu pai, quero dedicar a minha vida ao partido. Não vou brincar um minuto em serviço. Vou saber ser duro que nem uma boca de sino, mas também ser generoso como o coração de uma mãe”, declarou.
O evento foi marcado por manifestações da militância, que recepcionou Hugo Motta sob gritos de “sem anistia”, em referência à tentativa de setores políticos de poupar os responsáveis pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Em resposta, Motta elogiou figuras do PSB, como o vice-presidente Geraldo Alckmin, e afirmou que compareceu ao evento por “gratidão” à atuação da bancada socialista na Câmara.
Durante a cerimônia, Alckmin agradeceu a presença de Lula, destacando o ineditismo da participação de um presidente da República no congresso de outro partido. Em tom emotivo, evocou uma metáfora de Ernest Hemingway: “Dizem, presidente, que houve um diálogo em que um soldado pergunta ao outro: ‘Quem é seu companheiro de trincheira?’ E o outro respondeu: ‘De que isso importa?’ A resposta: ‘Importa mais do que a própria guerra’. Estamos honrados, presidente, de ser seu companheiro de trincheira na luta pela democracia.”
Reeleito em 2020 com 78% dos votos em Recife, João Campos desponta como uma das principais lideranças jovens da esquerda no Brasil. Ele lidera pesquisas de intenção de voto para o governo de Pernambuco e sua eleição à presidência do PSB ocorre num momento estratégico para a legenda, que busca ampliar sua presença institucional e manter-se no centro da articulação governista.
À frente do partido, João terá como principal missão preservar a aliança com o PT na disputa presidencial de 2026, além de expandir a bancada socialista na Câmara dos Deputados — atualmente com 14 parlamentares. Ele também terá o desafio de reposicionar o PSB para retomar o governo de Pernambuco e de construir uma frente democrática mais ampla nos estados.
Campos já informou a Lula que é prioridade do PSB manter Geraldo Alckmin como vice na chapa à reeleição. Em 2022, a presença do ex-tucano foi central para a consolidação da frente ampla que assegurou a vitória de Lula contra Jair Bolsonaro. Apesar disso, dentro do PT, há setores que defendem a reconfiguração da chapa para atrair novos apoios. João Campos, porém, tem uma posição clara: “Alckmin virou um grande companheiro de partido e vice-presidente. A nossa expectativa, e o que o partido vai defender, é a manutenção desta aliança entre Lula e Alckmin para presidente e vice em 2026. Essa é a visão do partido, e vamos trabalhar por isso. Quem dita o tempo é a política”.
Lula, por sua vez, evitou qualquer declaração direta sobre a composição da chapa, mas fez elogios enfáticos a Alckmin. Ele destacou a construção da aliança em 2022 como prova de que “a democracia não tem limite” e defendeu a união das forças progressistas como caminho necessário para enfrentar a força eleitoral da direita no país.
O presidente também aproveitou para alertar sobre os riscos de divisões internas. “Fazemos as disputas todas, mas quando vemos o final das eleições, a direita elege o dobro do que a esquerda progressista. Já cometemos erros demais. Temos que pensar o seguinte: o que queremos daqui para frente?”, questionou. E fez um apelo à disciplina partidária: “Se você quer fazer o que pensa, seja candidato avulso. Se quiser ser do partido, obedeça ao partido. A minha relação com o PSB é carnal, estamos ligados umbilicalmente. Nossas divergências acontecem unicamente nisso: é um vereador que não quer aceitar, um governador que não quer aceitar”.
João Campos, em sua fala, reforçou o desejo de fazer do PSB um polo de construção de alianças políticas em torno de uma frente democrática ampla. “Esse time está pronto para fazer um grande trabalho. Vamos construir pontes. Vamos mostrar que o nosso partido está pronto para acolher uma grande frente política. Vamos consolidar uma frente democrática nos estados brasileiros e no Brasil, com o presidente Lula”, afirmou.
Entre os planos de curto prazo do novo presidente está a ampliação da bancada federal do partido, que hoje conta com 14 deputados, para ao menos 25 parlamentares na próxima legislatura. Também está em negociação a possibilidade de uma federação com o Cidadania, legenda que rompeu com o PSDB e procura nova articulação nacional.
“O PSB vai estar presente naquilo que o povo espera. E principalmente sentado na mesa eleitoral e ganhando eleição. Temos uma projeção de crescimento da bancada federal e crescimento de candidaturas representando os quatro cantos do Brasil”, anunciou.
Questionado sobre a possibilidade de se lançar candidato ao governo de Pernambuco em 2026, João preferiu não antecipar sua decisão. “Hoje eu sou prefeito, é a maior honra da minha vida. Vou continuar trabalhando muito como prefeito e agora como presidente do partido. A decisão sobre 2026 será tomada na hora certa. Mas com certeza nosso partido terá candidato ao governo de Pernambuco”, declarou, deixando em aberto uma eventual candidatura sua ao Palácio do Campo das Princesas.
Foto: Foto: Brenno Carvalho

