A demissão de Juscelino Filho (União Brasil-MA) do Ministério das Comunicações abriu uma nova frente de disputa entre PSD e União Brasil por espaço no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O episódio serviu como gatilho para que o PSD voltasse a pressionar por mudanças na Esplanada dos Ministérios, com foco na substituição de Celso Sabino (União Brasil-PA) no Ministério do Turismo — uma movimentação que revela os conflitos internos no Centrão e a busca por maior influência no governo federal.

Juscelino, que enfrenta denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) por suposto desvio de emendas no Maranhão, deixou o cargo após pressão crescente. Em seu lugar, o União Brasil indicou o deputado federal Pedro Lucas Fernandes (União-MA), nome ligado ao presidente do partido, Antônio Rueda, e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Fernandes tem relação de confiança com ambos, embora não mantenha proximidade com Lula.

Durante visita a Honduras para a Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), Lula declarou que o União Brasil manterá o controle do Ministério das Comunicações e que pretende discutir pessoalmente a indicação de Pedro Lucas com a cúpula do partido. “O União Brasil tem o direito de me indicar o sucessor para o Juscelino, que é do União Brasil. Eu já tenho o nome, eu conheço o Pedro Lucas. Vou voltar para o Brasil, e amanhã (hoje) de manhã vou conversar com o União Brasil”, disse o presidente.

Na mesma ocasião, Lula elogiou publicamente o trabalho de Celso Sabino, enfraquecendo a expectativa do PSD de assumir o Turismo. Em telefonema com viva voz dois dias antes da declaração pública, Alcolumbre e Rueda chegaram a consultar Lula sobre a possibilidade de deslocar Sabino para as Comunicações, mas ouviram do presidente que preferia mantê-lo onde está. Foi nesta conversa que Lula abriu caminho para a entrada de Pedro Lucas Fernandes na Esp

Apesar do apoio de Lula a Sabino, o PSD não pretende recuar em sua tentativa de trocar o Ministério da Pesca, atualmente sob sua responsabilidade, pelo Ministério do Turismo. A legenda, que já ocupa as pastas da Agricultura, Minas e Energia e Pesca, considera-se sub-representada no governo. O Turismo, por sua vez, é visto como uma pasta estratégica, por concentrar um volume expressivo de emendas parlamentares destinadas a eventos, obras e ações nos estados.

Segundo dirigentes da sigla, o ministério seria uma ferramenta importante para atender as bases eleitorais em estados como Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e Paraná — onde o partido mantém presença expressiva na Câmara e disputas locais acirradas. O comando da pasta também serviria como uma espécie de compensação política pelo apoio prestado à eleição de Lula no segundo turno, em especial por lideranças como o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD).

Além disso, parlamentares do PSD lembram que a bancada na Câmara tem atuado de forma estratégica em votações polêmicas, como a do projeto de lei que trata da anistia a envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. A sigla tem ajudado a barrar requerimentos de urgência, influenciando outras bancadas de centro-direita — incluindo o próprio União Brasil, Republicanos e Progressistas. Esse apoio, argumentam, deveria ser recompensado com mais espaço no governo.

No entanto, até o momento, Lula não demonstrou disposição para ampliar mudanças no primeiro escalão. Desde o final de 2024, o presidente tem feito apenas trocas pontuais, focadas principalmente em nomes ligados ao PT. Ele tem evitado convocar líderes partidários para discutir uma ampla reforma ministerial. Em declaração recente, reafirmou que as mudanças acontecerão apenas quando considerar necessário: “Eu não tenho uma data, eu não tenho um prazo, eu não tenho uma decisão. Eu vou fazendo na hora que eu achar que tem que mudar.”

Celso Sabino, por sua vez, tenta consolidar sua permanência à frente do Turismo com apoio de peso. Conta com a chancela de Alcolumbre, da bancada do União Brasil no Congresso e até mesmo de Lula, que vê sua atuação com bons olhos. Além disso, o ministro destaca os números crescentes da entrada de turistas estrangeiros no Brasil como evidência de uma gestão eficaz.

“Estou tranquilo. Sigo trabalhando. Meu tripé é Deus, Lula e minha bancada do União na Câmara. Enquanto tiver apoio dos três, sigo firme trabalhando no Turismo”, declarou Sabino, tentando minimizar as especulações sobre sua saída.

Dentro do PSD, o nome mais cotado para substituir Sabino, caso o partido consiga emplacar a troca, é o deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ). Apadrinhado por Eduardo Paes, Pedro Paulo foi uma das principais apostas da legenda durante a transição do governo, tendo sido sondado para o Turismo em 2022. No entanto, sua nomeação acabou sendo vetada devido à repercussão de uma acusação de violência doméstica envolvendo sua ex-mulher — caso que foi arquivado pelo Supremo Tribunal Federal em 2016.

Agora, líderes do PSD consideram que a nomeação de Pedro Paulo seria uma espécie de reparação. Ele teria, enfim, a oportunidade de assumir a pasta que “quase foi sua” durante o início do governo. A ideia seria deslocar Celso Sabino para o Ministério da Ciência e Tecnologia, atualmente ocupado por Luciana Santos (PCdoB). Esta, por sua vez, é mencionada como possível substituta de Cida Gonçalves no Ministério das Mulheres — embora Lula não tenha dado qualquer indicativo de que essas trocas estejam nos seus planos.

A substituição de Juscelino Filho, embora pontual, desorganizou o tabuleiro político da Esplanada e reativou pressões contidas dentro da base aliada. PSD e União Brasil, duas das principais forças do Centrão, disputam não apenas espaços simbólicos, mas ferramentas reais de articulação política e redistribuição de verbas federais. Com isso, a queda de um ministro abriu margem para novos tensionamentos — e para a constatação de que a estabilidade na base de Lula continua condicionada ao difícil equilíbrio entre pragmatismo e lealdade.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

 

 


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