Na tentativa de garantir sua sobrevivência política, o PSDB realiza nesta quinta-feira uma convenção nacional que pode selar a incorporação do Podemos, legenda presidida pela deputada federal Renata Abreu (SP). A proposta, costurada por lideranças como o presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo, e o deputado federal Aécio Neves (MG), é vista como o último movimento viável para manter a legenda viva e relevante no cenário político brasileiro, diante do encolhimento do partido nas últimas eleições e da crescente perda de quadros expressivos.

Com a incorporação do Podemos, os tucanos esperam consolidar um partido de centro, equidistante tanto do lulopetismo quanto do bolsonarismo, numa tentativa de oferecer uma alternativa viável ao eleitorado insatisfeito com os extremos. A articulação ganhou força após o fracasso nas negociações com o PSD de Gilberto Kassab, que tentou absorver o PSDB em uma incorporação sumária, rechaçada por boa parte da cúpula tucana.

Nesse meio-tempo, o PSDB sofreu perdas importantes. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, migraram para o PSD. Leite era o principal nome tucano para disputar a Presidência em 2026. Hoje, resta ao partido apenas um governador: Eduardo Riedel, do Mato Grosso do Sul, que ainda não decidiu se continuará na sigla.

A fusão com o Podemos surge, portanto, como o único caminho com apoio majoritário. Segundo dirigentes ouvidos pelo *Estadão*, embora haja resistências pontuais, especialmente de quadros paulistas, a expectativa é de aprovação. O senador Plínio Valério (AM), líder tucano no Senado, diz acreditar que a proposta passará com tranquilidade: “Acho que a gente precisa buscar uma saída. Fui contra no início, preferia morrer de pé, mas fui convencido de que é uma boa alternativa”. Plínio pondera que, juntos, PSDB e Podemos formariam uma legenda de porte médio e que sua realidade local, no Amazonas, pesou na decisão, especialmente pela necessidade de tempo de TV para alcançar o eleitor urbano.

A resistência mais visível parte de militantes históricos de São Paulo, que protocolaram uma moção em maio pedindo a preservação do nome, número e símbolo do PSDB. Entre os signatários estão Mário Covas Neto, José Aníbal e outros nomes ligados ao histórico do partido. Ainda assim, o presidente estadual do PSDB paulista, Paulo Serra, minimiza: “Há um certo saudosismo na moção, mas isso será debatido. Não é resistência, é preocupação com o legado”.

Paulo Serra defende que a incorporação abre espaço para uma reconfiguração do centro político, necessária num cenário de polarização crescente: “Precisamos de um movimento político que resgate esse espaço para quem não se identifica com os extremos”.

Já Mário Covas Neto, o Zuzinha, avalia que a saída de Eduardo Leite esvaziou o entusiasmo pela fusão. “O objetivo era ampliar a base de uma candidatura nacional. Com a saída dele, perde-se esse norte. Mas não se precisa de um partido grande para ter sucesso, basta um bom candidato”, argumenta, citando Collor e Bolsonaro como exemplos de outsiders vitoriosos por legendas pequenas.

A convenção será realizada de forma semipresencial na sede nacional do PSDB, em Brasília, e reunirá membros do Diretório Nacional, delegados estaduais, distritais e parlamentares. Além da proposta de incorporação, serão discutidas mudanças estatutárias e de programa partidário. A Executiva Nacional também receberá poderes para conduzir os trâmites junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Aécio Neves, defensor da união com o Podemos, afirma que a convenção é um passo formal, previsto pela legislação, mas já com efeitos políticos práticos: “Nossa ideia é sair de lá com tudo pronto para bater o martelo e assinar a certidão de casamento. Os últimos detalhes ficarão a cargo das executivas de ambos os partidos”.

Embora o edital fale em fusão ou incorporação, as lideranças tucanas reconhecem que a estratégia jurídica será mesmo a incorporação do Podemos ao PSDB, considerada mais ágil. Nessa modalidade, o partido incorporado adota o estatuto e programa do incorporador e deixa de existir como sigla independente. Já a fusão exige a criação de um novo estatuto, nome e programa, o que torna o processo mais lento.

Mesmo com a incorporação, a ideia é que o novo partido promova mudanças para simbolizar a união: ajustes no estatuto, novo nome e até rodízio na presidência estão em pauta. Tucanos e membros do Podemos têm defendido publicamente a união como uma fusão de fato, embora juridicamente o caminho seja outro.

Um estudo encomendado pelo Podemos aponta que o novo partido teria um Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) de cerca de R$ 380 milhões, o que o colocaria como a sétima maior legenda do país, à frente do Republicanos. O fundo partidário também cresceria, atingindo R$ 90 milhões, superando inclusive PSD, Republicanos e MDB.

A fusão também traria impactos significativos em número de prefeitos e presença legislativa. Juntos, PSDB e Podemos passariam a ter cerca de 400 prefeitos, superando partidos como PT, PSB e PDT, e governando cidades que somam aproximadamente 16 milhões de habitantes. No Congresso, o partido resultante teria 30 deputados federais e sete senadores, desde que não haja desfiliações em reação à união.

Aécio Neves vê a fusão como uma etapa de reestruturação que pode levar a novas articulações no futuro, como uma federação com MDB ou Republicanos. Ele rejeita a ideia de que a iniciativa visa apenas driblar a cláusula de barreira e insiste em que o objetivo é reconstruir uma alternativa de centro.

“Estou envolvido nisso não por conta de cláusula de desempenho, mas porque acredito na necessidade de um partido com projeto próprio, independente dos extremos. Todos os demais estão, de alguma forma, ligados ao governo, e o Brasil precisa de algo diferente”, afirma.

Segundo ele, a proposta é criar um partido que se oponha tanto ao fisiologismo quanto à polarização ideológica que tomou conta da política nacional. “Queremos romper com essa lógica de partidos pragmáticos, que existem apenas para disputar fundo eleitoral. O Brasil precisa de uma alternativa mais séria e estável”.

A convenção desta quinta-feira pode, portanto, representar o início de uma nova fase para o PSDB — ou sua última cartada em busca de sobrevivência política num cenário cada vez mais hostil para legendas tradicionais.

Foto: Kiko Scartezini/PSDB

 

 

 


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