O recuo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), da visita que faria nesta quinta-feira ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”, foi interpretado por aliados como uma tentativa deliberada de evitar envolvimento mais profundo com a pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A justificativa oficial apresentada pelo governador foi a existência de compromissos em São Paulo, que, até o momento, não foram detalhados publicamente.

Embora Tarcísio já tenha declarado apoio político a Flávio, pessoas próximas ao governador avaliam que o contexto mudou após a repercussão de declarações do senador à imprensa sobre o conteúdo que teria a conversa entre o pai e o chefe do Executivo paulista. Na leitura desse grupo, a visita deixaria de ser apenas um gesto pessoal de solidariedade a Bolsonaro para se transformar em um sinal político explícito de alinhamento à estratégia eleitoral do clã, ampliando pressões para que Tarcísio assumisse papel mais ativo na campanha presidencial.

Na quarta-feira anterior ao cancelamento, Flávio Bolsonaro afirmou que o pai reforçaria ao governador a necessidade de foco total na reeleição em São Paulo, descartando qualquer projeto presidencial próprio. Segundo o senador, Bolsonaro diria que Tarcísio estaria fazendo um “grande trabalho” no estado e que sua recondução ao cargo seria essencial para a estratégia nacional de derrotar o PT, afastando de vez a hipótese de uma candidatura ao Planalto.

Essa declaração, segundo aliados do governador, colocou Tarcísio em uma posição desconfortável, justamente por antecipar publicamente o enquadramento político que ocorreria na visita. O entorno do governador avalia que ele busca preservar autonomia para decidir, mais adiante, qual será seu grau de envolvimento na eleição de 2026, evitando ser tratado como peça subordinada a uma estratégia definida previamente pelo núcleo bolsonarista.

O cancelamento da visita causou estranhamento entre aliados políticos. Um dirigente de um grande partido do Centrão classificou a decisão como “estranha”, avaliação que também chegou ao círculo próximo de Flávio Bolsonaro. Para interlocutores do senador, o gesto indicou que o governador se sentiu pressionado a demonstrar um apoio mais explícito do que estaria disposto a oferecer neste momento.

Segundo uma pessoa próxima a Flávio e que participou da campanha de Tarcísio em 2022, o governador tinha clareza de que, durante a visita, seria cobrado diretamente por Bolsonaro a “entrar de cabeça” na campanha presidencial do filho. Conhecido por resistir a pressões, Tarcísio teria optado pelo recuo como forma de evitar um compromisso público difícil de ser administrado politicamente.

Aliados de Flávio afirmam agora que aguardam para saber se haverá um novo pedido de visita ao ex-presidente, mas reconhecem que o gesto do governador impôs um freio momentâneo à tentativa de consolidar, desde já, um alinhamento mais visível. Do lado de Tarcísio, a orientação segue sendo a de não fechar portas nem assumir compromissos adicionais no curto prazo.

A estratégia do governador, segundo aliados, é adiar qualquer definição mais clara sobre seu papel na disputa presidencial pelo menos até abril. O argumento é que, com Bolsonaro preso e o bolsonarismo em processo de reorganização interna, qualquer movimento pode ser interpretado como um “carimbo” definitivo de alinhamento, reduzindo margens de negociação futura.

O recuo ganhou peso adicional porque o próprio Tarcísio havia confirmado publicamente que realizaria a visita após autorização do Supremo Tribunal Federal. Na véspera, ele chegou a declarar que iria encontrar um amigo, manifestar solidariedade, oferecer apoio pessoal e verificar se Bolsonaro precisava de algo, reforçando a relação de proximidade entre ambos.

A visita havia sido autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes e seria o primeiro encontro entre os dois desde a prisão do ex-presidente, no fim de novembro, além de marcar a primeira conversa após Bolsonaro indicar formalmente Flávio como seu pré-candidato ao Planalto, em dezembro. O pedido de autorização partiu da defesa do ex-presidente.

Nos bastidores, a crise interna do bolsonarismo se intensificou nas últimas semanas, especialmente com a atuação de Michelle Bolsonaro junto ao STF em torno do pedido de prisão domiciliar por razões de saúde. A ex-primeira-dama passou a ser vista como uma espécie de ponte institucional do grupo com ministros da Corte, em uma estratégia gradual que busca melhorar condições, ampliar acessos e insistir em uma saída de caráter humanitário.

Nesse cenário, a presença de Tarcísio nesse circuito tornou-se elemento de disputa interna. Setores do bolsonarismo interpretam gestos do governador como uma forma de preservar vínculo com Bolsonaro e manter canais abertos com o núcleo que hoje influencia decisões relevantes. Ao mesmo tempo, aliados de Flávio tentam blindar a pré-candidatura do senador e evitar que Tarcísio seja visto como um nome presidencial “natural” da direita.

Interlocutores avaliam que, ao antecipar publicamente o teor do encontro e descartar qualquer projeto presidencial do governador, Flávio acabou criando para Tarcísio um custo político imediato. Se fosse à Papudinha, seria enquadrado; se desmentisse publicamente a versão, entraria em conflito direto com o núcleo bolsonarista. O cancelamento, dizem aliados, foi a saída encontrada para escapar dessa armadilha e adiar, ao menos por ora, uma adesão explícita à estratégia eleitoral do grupo.

Foto: Reprodução/Facebook


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