Com a saída de Carlos Lupi do Ministério da Previdência Social, integrantes do PDT alinhados ao ex-ministro Ciro Gomes anunciaram que o partido não manterá mais apoio integral ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Câmara dos Deputados. A mudança sinaliza um movimento de independência que já causa apreensão no Palácio do Planalto.
Embora o sucessor de Lupi, Wolney Queiroz, também seja do PDT e ocupe a secretaria-executiva da pasta, a ala cirista do partido avalia que sua nomeação não garante a continuidade da aliança. Parlamentares lembram que Wolney se posicionou contra a candidatura de Ciro Gomes à Presidência em 2022, o que reforça o distanciamento político.
Essa ala sustenta que a indicação de Wolney foi uma decisão pessoal de Lula e que, portanto, o PDT poderá adotar uma postura independente no Congresso. O líder do partido na Câmara, deputado Mário Heringer (MG), reconheceu que essa possibilidade está em debate entre os parlamentares. Lupi, que é o presidente licenciado do PDT, deixou temporariamente a liderança partidária quando assumiu o ministério.
Segundo deputados pedetistas, enquanto Lupi integrava a Esplanada, havia um compromisso tácito de apoio total às pautas do governo. Com sua demissão, esse compromisso deixou de existir, conforme discutido entre parlamentares na sexta-feira (2), data oficial da saída do ex-ministro.
Atualmente, o PDT conta com 17 deputados federais e três senadores, números que fizeram a diferença em votações decisivas para o governo. Um exemplo foi a votação de urgência do projeto de lei que restringe o acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). Na ocasião, todos os 14 deputados do PDT presentes votaram com o governo, garantindo a aprovação por uma margem estreita.
A ala ligada a Ciro Gomes ressalta que, apesar de algumas convergências ideológicas com o governo Lula, existem divergências relevantes na área econômica que podem levar o partido a adotar caminhos distintos em futuras votações.
O sentimento de independência é mais acentuado na Câmara dos Deputados. No fim de março, Mário Heringer organizou um jantar em Brasília com a presença de Ciro Gomes e outros deputados pedetistas. Durante o encontro, os parlamentares incentivaram Ciro a concorrer novamente à Presidência da República em 2026.
No dia 1º de maio, Heringer criticou publicamente o tratamento dado pelo governo federal a Carlos Lupi. Segundo ele, a forma como o Planalto conduziu a crise causou “extremo constrangimento” ao PDT e contribuiu para o afastamento do partido da base governista.
Apesar disso, o posicionamento não é unânime no partido. Após o fraco desempenho do PDT nas eleições municipais de 2024, alguns deputados defenderam a expulsão de Ciro Gomes, argumentando que suas posições políticas poderiam prejudicar a legenda nas eleições de 2026.
Com a abertura da janela partidária prevista para 2026, existe a expectativa de que vários deputados, especialmente do Ceará, deixem o partido. O estado é palco de um conflito político entre Ciro e seu irmão, o senador Cid Gomes, que migrou do PDT para o PSB.
Enquanto isso, o Palácio do Planalto aposta em Wolney Queiroz para manter o diálogo com a bancada pedetista e evitar uma ruptura completa. Aliados de Lula destacam que, além de ter sido o número dois de Lupi no ministério, Wolney possui forte ligação com os deputados do partido.
A demissão de Lupi ocorreu em meio à crise envolvendo descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram, em 23 de abril, a Operação Sem Desconto, que investiga um esquema fraudulento que desviou cerca de R\$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
O PDT e Lupi também expressaram descontentamento com o fato de o Planalto ter indicado o procurador Gilberto Waller Junior para comandar o INSS sem consultar o então ministro.
Mesmo fora do governo, Lupi continua sendo alvo da oposição. Na sexta-feira, deputados oposicionistas protocolaram uma representação criminal contra ele, solicitando que o caso seja encaminhado ao Supremo Tribunal Federal caso surjam indícios de seu envolvimento. Além disso, articula-se a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara, ou até uma CPI mista com senadores, para aprofundar as investigações sobre o escândalo no INSS.
Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

