A três dias da entrada em vigor da tarifa de cinquenta por cento sobre produtos brasileiros, imposta pelo governo dos Estados Unidos, uma comitiva oficial do Senado brasileiro está em Washington D.C. para reuniões com parlamentares norte-americanos no Capitólio. O objetivo dos senadores é abrir canais de diálogo e demonstrar os prejuízos bilaterais que a medida acarretará caso seja mantida.

A missão busca o apoio tanto de democratas quanto de republicanos, partido do presidente Donald Trump, para reforçar a posição institucional do Brasil e os danos econômicos a ambos os países. O senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) e coordenador da comitiva, afirmou: “Essa missão é o primeiro passo de uma reaproximação institucional entre os parlamentos do Brasil e dos Estados Unidos”.

A gente sabe que não é aqui que vamos resolver o problema das tarifas, mas viemos mostrar que o Senado brasileiro está disposto a abrir o diálogo e construir pontes”, declarou. Trad ainda ressaltou que a comitiva pretende demonstrar aos parlamentares norte-americanos que o tarifaço criará uma situação de “perde-perde” para os dois países.

Um dos congressistas visitados foi o senador democrata Martin Heinrich, do Novo México, estado que importa pelo menos dez produtos brasileiros. A estratégia brasileira é mostrar as consequências práticas da nova tarifa sobre os estados representados por cada parlamentar.

Também vamos entregar para eles um convite, por meio de uma carta, para que possam ir ao Brasil conhecer a realidade que estamos mostrando”, explicou Trad.

Na tarde de segunda-feira, os senadores participaram de reunião com representantes da Câmara Americana de Comércio e lideranças do Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos. Durante o encontro, foi articulada uma manifestação conjunta pedindo ao governo norte-americano o adiamento da tarifa de cinquenta por cento.

Não viemos com bandeira ideológica, viemos com dados e responsabilidade. O ‘não’ nós já temos, viemos correr atrás do ‘sim’”, declarou Trad após encontro com executivos de empresas como Cargill, ExxonMobil, Johnson & Johnson e Caterpillar.

Além de Trad, integram a missão oficial os senadores Carlos Viana (Podemos-MG), Jacques Wagner (PT-BA), Rogério Carvalho (PT-SE), Teresa Cristina (PP-MS), Esperidião Amin (PP-SC), Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) e Fernando Farias (MDB-AL).

A tarifa foi anunciada por Donald Trump em 9 de julho, por meio de carta enviada ao governo brasileiro por rede social. Segundo ele, a medida é uma retaliação à suposta perseguição judicial do Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que responde a processos por tentativa de golpe de Estado.

Henrique Salles Pinto, consultor legislativo do Senado na área de Economia e Agricultura, observa que a medida tem forte viés político e geopolítico. “O que me preocupa nesse contexto inteiro é que, progressivamente, o presidente Trump, já sabendo das consequências socioeconômicas do tarifaço para a sua população, está caminhando para processos de negociação para reduzir tarifas com parceiros estratégicos”, afirmou.

“Anunciou o nível tarifário em torno de quinze por cento para a União Europeia e está em negociação com a China para reduzir tarifas. Meu medo é que o Brasil fique sozinho num nível de tarifa inviável, que acaba sendo um embargo econômico às exportações brasileiras”, alertou o consultor. “O governo brasileiro está ciente e tenta negociar, mas as dificuldades econômicas podem se prolongar por semanas ou meses.”

Salles Pinto destaca que os impactos para o Brasil devem ser maiores nas exportações de produtos industrializados, de maior valor agregado. “No caso da China, principal parceiro comercial, exportamos commodities e minérios com pouco beneficiamento. Já para os Estados Unidos, exportamos principalmente aviões, máquinas, equipamentos e produtos do agronegócio com maior valor agregado, como o suco de laranja.”

Ele também apontou que São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais serão os estados mais afetados em termos absolutos de volume e valor. A Embraer, sediada em São José dos Campos, deve sentir fortemente os efeitos da nova tarifa. O mesmo vale para o Rio de Janeiro, que exporta combustíveis, e para Minas Gerais, importante fornecedor de cafés e chás.

Agora, quando falamos dos estados que mais dependem, proporcionalmente, da pauta de exportação para os Estados Unidos, o perfil é um pouco diferente. Falamos do Ceará, de Sergipe e do Espírito Santo”, explicou. “A situação tende a ser crítica, principalmente em Sergipe, com o suco de laranja. Com a tarifa de cinquenta por cento, teremos literalmente uma situação de embargo. O comércio se torna inviável.”

Em relação aos prejuízos para os Estados Unidos, o consultor destaca que o tarifaço integra um conjunto mais amplo de medidas protecionistas, que inclui tarifas sobre produtos da China, Coreia do Sul, Japão e União Europeia.

“O resultado tem sido o aumento dos preços no mercado americano, já sentido pela população. Se o processo de sobretaxação não for revertido, em escala global e não apenas com o Brasil, essa pressão inflacionária tende a se agravar.”

Ele alerta ainda para os impactos sobre o consumo nos Estados Unidos: “A consequência para a população americana são preços mais altos nas cestas de bens e serviços, o que reduz o poder de compra.”

Para conter a inflação decorrente dos preços elevados, o Federal Reserve tende a manter as taxas de juros mais altas do que a média histórica, o que afeta diretamente os investimentos no país.

“Para o empresário, investir exige acesso a taxas de juros razoáveis. Se essas taxas estão elevadas e podem subir ainda mais, o investidor tende a recuar. Isso impacta negativamente o crescimento econômico”, detalhou Salles Pinto.

O consultor concluiu que os efeitos colaterais podem chegar ao mercado de trabalho: “Tudo isso pode contribuir para o aumento do desemprego nos Estados Unidos.”

Foto: Galvão/Gab. Senador Nelsinho Trad


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