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Imprensa e poder estão sempre em paralelo, andam juntos, porque sem as manifestações do poder a imprensa fica capenga, e passa a noticiar apenas chá de senhoras e voos de asa delta, dentre outras amenidades. Perde a graça, a imprensa, porque o poder gera consequências, boas e más, e a imprensa está presente para informar e comentar gestão e resultados, estimulando o debate e acirrando o contraditório.

Rogério Moura e eu crescemos na mesma rua, onde convivemos e construímos amizade, que ainda perdura. Apesar de bacharel, Rogério não militou na advocacia, preferindo se enveredar no setor financeiro, onde atuou com sucesso ao longo do tempo. Mas, tinha o seus clientes de ocasião, e alguns deles Rogério encaminhava para mim, que ensaiava os primeiros passos na advocacia, à qual também não cheguei a me dedicar na plenitude. E foi assim que bateu à minha porta um pequeno empresário; chegou nervoso, trêmulo, falando aos arrancos e com frases soltas. Calma, prezado, disse ao aflito visitante, enquanto, puxando a cadeira, o convidava a sentar-se.

O cliente tinha baixa estatura, estava pálido e descontrolado emocionalmente. Narrou, por mais de duas horas, problemas de relacionamento com sócio minoritário, um rapaz bem jovem, que segundo ele havia se apoderado da empresa, mediante contrato social assinado pelas partes sem a devida acuidade, o que teria gerado procedimentos e consequências indesejados. A história era complexa e merecia avaliação mais profissional do ponto de vista de janela aberta para a verdade real, que me parecia obscura e que deveria ser encontrada.

O meu roteiro diário, como repórter, contemplava cobertura de pauta referente a prisões políticas, realizadas tanto pelo antigo e temido DOPS, Departamento de Ordem Política e Social, quanto pelo DOI-CODI ( Destacamento de Operações de informação-Centro de Operações de Defesa Interna ), do Exército, me levando a conhecer os responsáveis diretos por tais procedimentos, tais como generais, coronéis e delegados, como também a maioria dos agentes encarregados das operações de campo. Apesar de saber dos riscos de tratativas com o demo, este não seria o caso no tocante ao delegado David Hazan, chefe do DOPS, de quem fui amigo até a data do seu falecimento, quando a ele prestei a última homenagem no Parque da Colina, em Belo Horizonte.

David sabia exercer o poder, e o fazia com moderação e eficácia. Não aceitava a prática de tortura, seguia a cartilha do Movimento de 64 mediante ordens, tendo descumprido algumas. Ele procurava se arrimar nos procedimentos de “inteligência”, enquanto mantinha convivência cerimoniosa com o DOI-CODI, braço de operações do Exército, que ocupava metade do terceiro andar do DOPS, na Avenida Afonso Pena, parede-meia com o gabinete do David Hazan. Com o DOI-CODI divergiu em alguns momentos, discordância que quase lhe custou a carreira, não fora a minha visita ao então comandante da ID-4, general Álvaro Cardoso, braço da 4ª.Região Militar, em Belo Horizonte, para esclarecer alguns fatos de equivocadas versões que, devidamente restauradas, se tornaram favoráveis ao Hazan e o mantiveram no cargo.

David, que pagava os favores recebidos, se prontificou a convidar o tal rapaz do contrato obscuro, para uma reunião de aclaração sobre o assunto, inclusive com acareação, se necessária. As coisas, à época, eram assim, muito informais e vistas com naturalidade: era o exercício do poder sem amarras e até descontrolado, vez por outra, o que atualmente se mostra inconcebível, o que é muito bom. Recebida a missão, Almir, delegado do Departamento, e que anos depois veio a falecer mediante tragédia pessoal, seguiu com três agentes para o endereço do rapaz, com a missão de trazê-lo para depoimento, sem mandado e mediante as ações que se fizessem necessárias. O delegado estacionou à porta da casa do alvo e gritou o seu nome. O moço surgiu na varanda, mas percebeu sinal de perigo e soltou do canil dois cães da raça pastor alemão. Almir, seguido pelos seus três atléticos agentes, chutou o portão e partiu para cima, enquanto seus ajudantes se ocupavam dos pastores, que latiam agressivamente. Em meio ao tumulto foram chegando os vizinhos e junto uma senhora de meia idade, obesa e muito nervosa, que saiu do interior da residência, gritando: “socorro, socorro, Agrícola, Agrícola!!!!” Almir bradou “sujou” para os seus agentes, e entraram todos no veículo, uma velha Kombi descaracterizada, que decolou rapidamente poluindo o ambiente com fumaça negra e espessa.

De volta ao DOPS Almir se apresentou ao Hazan, para relatar o ocorrido. Beberam café, David se ocupou com um telefonema antes de ouvir a versão e passou a palavra ao delegado, que se apresentava tão frio quanto o seu chefe. Em meio à conversa a porta do gabinete foi aberta de supetão, sem anúncio, quando entraram, sôfregas, duas pessoas, o delegado Armando Agrícola, da Polícia Civil, e o seu protegido, um rapaz jovem, de olhar assustado. “David, amigo, o meu sobrinho sofreu, agora, tentativa de sequestro e preciso da sua ajuda. A casa da família, ao lado da minha, foi invadida por indivíduos violentos, e o meu sobrinho foi salvo pela presença da vizinhança, que intimidou os marginais”. David, que recostado em sua cadeira estava e que recostado na mesma se manteve, levantou o olhar para o colega, quando o rapaz se adiantou e, puxando, com força, a aba do paletó do delegado Agrícola, disse em voz alta e trêmula: “Tio, tio, os sequestradores estão aqui !!!” David não moveu um músculo da face, e explicou ao Tio que, mediante o recebimento de denúncia anônima de tráfico de “tóxicos” ( expressão que ele gostava de usar ) havia mandado apurar, mas que houve tumulto, e que os seus agentes preferiram cancelar a diligência. Desfeito o equívoco, Agrícola se deu por satisfeito e o assunto foi encerrado. Quanto a mim, que estava de chegada ao Departamento, para saber o resultado da reunião de aclaração com o rapaz, encontrei logo à entrada o Luís Raposão, apenado que se hospedava no local mediante a interferência de pistolões. Raposão passava o dia fora da cela, fazia negócios, visitas, e no DOPS, às escondidas, mantinha para venda pequeno estoque de uísque, parte contrabandeado e parte fabricado em lote vago na cidade de Santa Luzia, próxima a BH. Tão logo me avistou correu em minha direção, e disse: Ho! Mandaram lhe dizer para saltar fora porque deu merda !!!

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Caio Brandão

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