O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou nesta sexta-feira (29) que Kiev recebeu oficialmente da Casa Branca uma nova proposta de acordo envolvendo apoio militar em troca de concessões sobre seus recursos minerais. Segundo ele, a proposta requer uma análise minuciosa antes de qualquer posicionamento definitivo.
“Gostaria de destacar que, oficialmente, o lado ucraniano — ou seja, o Gabinete de Ministros e meu escritório — recebeu hoje, por nota diplomática, as propostas dos Estados Unidos”, declarou Zelensky em coletiva de imprensa em Kiev.
A nova proposta retoma pontos polêmicos defendidos anteriormente pelo ex-presidente Donald Trump, incluindo a exigência de que a Ucrânia reembolse os Estados Unidos por toda a ajuda militar e financeira recebida desde o início da invasão russa, há três anos. A proposta também não menciona garantias de segurança para Kiev — um tema central para o governo ucraniano nas negociações anteriores.
Como nas versões anteriores, a proposta estabelece que metade da receita gerada por projetos de exploração de recursos naturais e infraestrutura — como portos e oleodutos — seja destinada a um fundo de investimento sob controle americano. O lucro desse fundo seria reinvestido na economia ucraniana, embora os detalhes sobre a divisão desses rendimentos ainda sejam incertos.
Zelensky afirmou que o governo ucraniano vai avaliar cuidadosamente o conteúdo. “Ainda é cedo para conclusões. Mas não queremos que os EUA sintam que somos contrários à proposta. Queremos manter a cooperação”, disse o presidente, evitando o tom de rejeição que gerou mal-estar nas negociações anteriores.
A vice-primeira-ministra Yulia Svyrydenko reforçou que o governo está “trabalhando para garantir que o acordo reflita os interesses da Ucrânia”.
Apesar da cautela do Executivo, alguns parlamentares ucranianos expressaram preocupações. Segundo eles, a proposta apresenta exigências pesadas e cláusulas que comprometem a soberania econômica do país.
De acordo com fontes consultadas pelo *New York Times*, a versão mais recente do acordo estabelece que os Estados Unidos teriam direito a todo o lucro gerado pelo fundo até que Kiev reembolsasse a ajuda recebida, acrescida de 4% de juros ao ano. A Ucrânia também seria obrigada, no primeiro ano do acordo, a oferecer aos EUA as melhores condições financeiras para qualquer novo projeto de investimento, ficando impedida de firmar parcerias mais vantajosas com terceiros.
Outro ponto controverso é o controle da gestão do fundo. A proposta estabelece que a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (DFC, na sigla em inglês) — agência governamental responsável por investimentos no exterior — nomearia três dos cinco membros do conselho gestor do fundo, garantindo maioria. A DFC também teria poder de veto sobre novos projetos e seria responsável por supervisionar a implementação de cada investimento.
A retomada dessas exigências desagradou autoridades em Kiev, especialmente porque a versão anterior do acordo, negociada em fevereiro, havia eliminado alguns desses pontos mais rígidos. A retirada das garantias de segurança também foi mal recebida.
O jornal “Financial Times”, divulgou o rascunho de 55 páginas da nova proposta na noite de quinta-feira (28). Fontes ucranianas afirmaram que o texto ainda está em fase de negociação e que ajustes são esperados.
Para o economista Roman Sheremeta, reitor da American University em Kiev, a proposta é preocupante. “Na prática, isso transforma a Ucrânia em uma colônia americana”, escreveu ele em sua conta na rede social X (antigo Twitter).
O deputado de oposição Yaroslav Zhelezniak, que teve acesso ao documento, afirmou em vídeo que vê o texto como uma proposta inicial, e não um acordo fechado. “Não há chance de que ele seja aprovado da forma como está”, disse.
Apesar das críticas, o governo ucraniano optou por não rejeitar publicamente a proposta. Oleksii Movchan, vice-presidente da Comissão Parlamentar de Desenvolvimento Econômico e integrante do partido de Zelensky, disse que seria “irresponsável” criticar um texto ainda em negociação. “Nosso objetivo é seguir conversando e encontrar um entendimento aceitável para ambos os lados.”
O histórico recente reforça a cautela adotada por Kiev. No mês passado, após Zelensky ter criticado uma versão anterior da proposta, a Casa Branca reduziu temporariamente o envio de ajuda à Ucrânia, em um momento de fragilidade na linha de frente contra as forças russas.
Nos bastidores, Washington afirma que a nova proposta é uma tentativa de estabelecer um modelo de reembolso justo e de garantir retorno sobre os bilhões já investidos no esforço de guerra. Para Trump e seus aliados, explorar os vastos recursos minerais da Ucrânia — como titânio e lítio, essenciais para a produção de tecnologias avançadas — seria uma forma de “recuperar” parte da ajuda fornecida.
Em discurso recente na Casa Branca, Trump declarou que os EUA assinarão “muito em breve” um acordo com a Ucrânia. Já o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, disse à Fox News que o governo havia finalizado o texto e esperava que ele fosse assinado já na próxima semana.
Enquanto isso, o governo Zelensky avalia cuidadosamente as implicações políticas, econômicas e estratégicas da proposta. Em meio ao desgaste da guerra e à dependência crescente de ajuda externa, a Ucrânia caminha sobre uma linha tênue: garantir sua reconstrução sem abrir mão de sua soberania.
Foto: Genya Savilov

