O presidente da Rússia, Vladimir Putin, sugeriu nesta sexta-feira (28) a criação de uma “administração de transição” na Ucrânia, sob tutela da Organização das Nações Unidas (ONU) e sem a presença do presidente Volodymyr Zelensky, como pré-condição para o início de qualquer negociação de paz. A proposta foi feita após uma semana de intensa movimentação diplomática envolvendo aliados europeus da Ucrânia e autoridades americanas.
Putin apresentou a ideia durante visita à cidade de Murmansk, no noroeste russo, um dia depois de líderes europeus se reunirem em Paris para discutir garantias de segurança à Ucrânia. A reunião, no entanto, não chegou a um consenso sobre o envio de tropas ou mecanismos concretos para um eventual cenário de paz.
“Poderíamos discutir com os Estados Unidos, com países europeus e, claro, com nossos parceiros e amigos, sob a égide da ONU, a criação de uma administração de transição na Ucrânia”, disse Putin. Segundo ele, o objetivo seria “organizar eleições presidenciais democráticas que resultem em um governo legítimo e com a confiança do povo”, com quem então a Rússia poderia negociar e assinar um acordo de paz.
Putin argumentou que esse modelo já foi utilizado pela ONU em outras situações de manutenção da paz. Desde o início da guerra, em fevereiro de 2022, o líder russo insiste que a ofensiva visa destituir um governo que, segundo ele, estaria sob influência direta do Ocidente, ainda que Zelensky tenha sido eleito democraticamente em 2019.
A proposta surge em um momento de incerteza para a Ucrânia, especialmente diante da possibilidade de retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, o que poderia mudar radicalmente a postura americana no conflito. Kiev e seus aliados temem que um novo governo Trump favoreça concessões à Rússia.
O governo ucraniano não comentou oficialmente a sugestão de Putin, mas a lei marcial em vigor desde 2022 impede a realização de eleições no país. Com grande parte da população deslocada, vivendo sob bombardeios constantes, a realização de um pleito presidencial é vista como inviável no atual cenário.
Em paralelo à proposta de transição, Putin reafirmou a posição russa de recusa a um cessar-fogo imediato, conforme sugerido por Washington. Embora a Ucrânia tenha aceitado a proposta de trégua temporária no Mar Negro durante negociações recentes na Arábia Saudita, Moscou impôs exigências adicionais, como o fim das sanções econômicas ocidentais.
Putin afirmou, ainda em Murmansk, que as forças russas mantêm a “iniciativa estratégica” em toda a linha de frente. “Estamos avançando de forma constante, talvez não tão rápido quanto desejamos, mas com firmeza. Há motivos para acreditar que alcançaremos nossos objetivos”, declarou. Ele se referiu às metas de “desmilitarizar” e “desnazificar” a Ucrânia, justificativas usadas pelo Kremlin desde o início da guerra.
Apesar de sinalizar uma trégua temporária nas ofensivas contra a infraestrutura energética da Ucrânia, Putin acusou Kiev de não cumprir seu compromisso de cessar ataques semelhantes. A Ucrânia, por sua vez, acusa a Rússia de continuar bombardeando instalações energéticas, contrariando o suposto acordo. Nesta sexta-feira, a operadora ucraniana Naftogaz denunciou um novo ataque russo, sem entrar em detalhes.
No mesmo dia, o Exército russo relatou que um bombardeio ucraniano destruiu uma estação de medição de gás em Sudzha, na região de Kursk, provocando um grande incêndio. “Essas tentativas de ataques continuam diariamente”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.
A Rússia também informou ter retomado o controle de uma localidade na região de Kursk, que havia sido tomada por forças ucranianas durante uma ofensiva surpresa no meio de 2024. Além disso, afirmou ter feito avanços no nordeste da Ucrânia, ampliando o controle territorial na região.
As declarações desta sexta-feira demonstram que o cenário de paz continua distante. A proposta russa de uma transição política sem Zelensky é vista com ceticismo por Kiev e seus aliados, especialmente diante do histórico de tentativas russas de interferência no sistema político ucraniano.
Enquanto isso, o conflito se estende, com estimativas de centenas de milhares de mortos — entre civis e militares — desde o início da invasão em grande escala. O desgaste humanitário e econômico cresce, enquanto as negociações seguem envoltas em desconfiança e impasses diplomáticos.
Foto: Vyacheslav Prokofyev

