A visita do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, ao ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL, nesta quinta-feira, reforçou de forma decisiva o cenário de sua reeleição no estado e elevou a temperatura das disputas internas em torno da composição da chapa paulista, especialmente a escolha do vice. Ao afirmar que “sem dúvidas” apoia o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, na corrida presidencial, Tarcísio sinalizou que não pretende disputar um cargo nacional em dois mil e vinte e seis, encerrando, ao menos por ora, as especulações sobre uma candidatura própria ao Planalto.

Aliados do governador avaliam que a declaração funciona como um gesto claro de alinhamento ao bolsonarismo e, ao mesmo tempo, como uma mensagem direta ao mercado político paulista: seu foco está no Palácio dos Bandeirantes. Para interlocutores próximos, o encontro com Bolsonaro simboliza o fim da expectativa, alimentada por meses, de que Tarcísio pudesse ser “ungido” candidato presidencial pelo ex-presidente. Segundo essas fontes, ficou evidente que Bolsonaro não abrirá mão da candidatura do filho e que o governador não confrontará a vontade de seu principal padrinho político.

A visita ocorreu no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”, onde Bolsonaro está preso. O encontro foi autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Ao deixar o local, Tarcísio afirmou que foi ao encontro para prestar solidariedade ao ex-presidente e levar mensagens de apoiadores, mas confirmou que o tema eleitoral esteve presente na conversa.

“O meu interesse é ficar em São Paulo. Isso não tem controvérsia nenhuma. A gente tem um projeto de longo prazo e quer ver esses projetos se materializando”, declarou o governador. Em seguida, reforçou o papel estratégico do estado. “Eu tenho um papel importante dentro do time, que é cuidar do estado, que é o maior colégio eleitoral do Brasil. O grupo tem uma tarefa importante, que é proporcionar para o Brasil um projeto diferente”, disse, ao mencionar o que considera uma crise fiscal e moral no país.

No encontro, Tarcísio e Bolsonaro também comentaram a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD. Segundo o governador paulista, o movimento foi bem recebido pelo ex-presidente. Aliados avaliam que, após a visita, ficou pacificada a definição sobre as candidaturas e sobre o papel de Tarcísio no tabuleiro nacional, com o aval explícito de Bolsonaro, ainda que haja ruídos dentro do PSD.

Esses ruídos têm nome e sobrenome. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, que também ocupa o cargo de secretário de Governo de São Paulo, tem demonstrado desconforto com os rumos políticos do governador. Aliados de Tarcísio relatam que Kassab vê com preocupação o alinhamento explícito ao bolsonarismo e teme que isso limite o potencial eleitoral futuro do governador.

Em entrevista concedida nesta quinta-feira, Kassab foi direto ao tratar do tema. “Tenho dito sempre ao governador Tarcísio que são muito importantes os gestos, as ações dele de reconhecimento, de gratidão a Bolsonaro, porque isso mostra caráter. Mas também é importante que uma personalidade como ele, que é governador de São Paulo e tem pretensões de comandar o país um dia, mostre que tem a sua identidade. Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade, outra coisa é submissão”, afirmou.

A filiação de Caiado ao PSD já havia sido interpretada como um sinal de que Kassab não está mais confiante na reversão do apoio de Bolsonaro a Flávio. Um aliado do governador avalia que, nesse novo desenho, o maior beneficiado dentro do partido pode ser o governador do Paraná, Ratinho Júnior, filiado há mais tempo ao PSD e visto como nome prioritário, à frente de Caiado e do gaúcho Eduardo Leite.

Embora Kassab tenha sido um dos principais entusiastas da candidatura presidencial de Tarcísio, fontes afirmam que ele já compreendeu que essa hipótese não se concretizaria sem a bênção de Bolsonaro. O próprio dirigente do PSD reconheceu esse cenário ao comentar as declarações do governador após a visita à prisão. “A palavra ‘jamais’ deve ser evitada na política, mas faço uma avaliação de que provavelmente ele será candidato à reeleição em São Paulo. Neste caso, é jogo jogado. Mas jamais vou usar essa palavra porque é incompatível com a política”, disse. “Ele não apenas declarou apoio ao Flávio, mas reafirmou que é candidato ao governo de São Paulo.”

Com isso, o foco da política paulista se desloca para a montagem da chapa estadual. A vaga de vice-governador ganha peso estratégico, não apenas para a eleição imediata, mas também para o futuro. Em dois mil e trinta, Tarcísio teria de se desincompatibilizar novamente do cargo caso pretendesse disputar a Presidência, e quem ocupar a vice poderá desempenhar papel central na articulação política.

Uma ala avalia que o PL já estaria contemplado nacionalmente com Flávio Bolsonaro, o que abriria espaço para uma composição com o PSD, seja com a manutenção do atual vice-governador, Felício Ramuth, seja com o próprio Kassab. Outra corrente, no entanto, defende que a vaga fique com o deputado estadual André do Prado, do PL, presidente da Assembleia Legislativa. Ele tem dito a interlocutores que o partido deve sair fortalecido da próxima janela partidária e que seu nome ajudaria a pacificar relações com prefeitos e com o Legislativo estadual.

Também avança, nos bastidores, a discussão sobre as vagas ao Senado. Hoje, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, do PP, é apontado como o nome mais consolidado para uma das cadeiras, enquanto a segunda vaga segue em aberto e deve ser alvo de intensas negociações.

No campo oposto, lideranças do PT e integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que os movimentos recentes consolidam o enfrentamento direto a Flávio Bolsonaro na disputa presidencial. Isso, segundo petistas, permite antecipar definições em São Paulo, onde o partido busca um palanque competitivo e capaz de chegar ao segundo turno.

O ministro do Empreendedorismo, Márcio França, foi duro ao comentar a postura do governador paulista. Para ele, Tarcísio não transmite confiança nem mesmo à família Bolsonaro. “Ele é menor que a cadeira de governador de São Paulo. Deveria conduzir, não ser conduzido, mas parece submisso. Não tem a confiança nem da família Bolsonaro, por que teria a dos paulistas? Será a grande surpresa negativa da eleição”, afirmou.

A crítica à imagem de subordinação de Tarcísio ao bolsonarismo vem sendo explorada por adversários há meses. Petistas também pretendem associar o governador à política externa do ex-presidente americano Donald Trump, especialmente após o anúncio de tarifas sobre produtos brasileiros. Segundo integrantes do partido, a imagem de Tarcísio usando um boné de campanha trumpista deverá ser um dos símbolos explorados na campanha eleitoral de outubro, como forma de questionar sua autonomia política e seu alinhamento internacional

Foto: Paulo Guereta / Governo do Estado SP


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