Dois anos após os atos de 8 de janeiro de 2023, a Polícia Federal (PF) avança nas investigações sobre a tentativa de golpe de Estado que envolveu o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros 39 indiciados. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, em entrevista ao O Globo, revelou que um relatório complementar está sendo elaborado para aprofundar pontos-chave da investigação. O documento será enviado à Procuradoria-Geral da República (PGR) e poderá implicar novos personagens na trama.
Sobre os financiadores do golpe:
“O relatório inicial já apontou pessoas responsáveis pelos crimes, incluindo financiadores, ainda que não se trate de grandes aportes. Houve uma pulverização: um cedeu um ônibus, outro forneceu comida ou água. O depoimento de Mauro Cid, por exemplo, trouxe informações sobre dinheiro supostamente vindo do agronegócio. Estamos apurando para detalhar a origem desses valores no relatório complementar, mas isso não altera o núcleo da investigação, que já identificou a tentativa de golpe.”
Sobre o plano de assassinato de autoridades:
“Fomos criticados com a frase: ‘Pensar em matar não é crime’. No entanto, as ações descritas no relatório mostram que houve tentativas práticas. Pessoas vigiavam o ministro Alexandre de Moraes, e planos foram discutidos dentro do Palácio do Planalto e levados ao Alvorada, onde estava Jair Bolsonaro. Não houve adesão das Forças Armadas nem a comoção popular esperada, o que impediu o avanço. Mas não estamos falando apenas de cogitações; são ações reais.”
Sobre novas delações e prisões:
“A delação é um direito do investigado. Se alguém quiser colaborar e trazer informações inéditas, a PF está sempre disponível. Quanto a novas prisões, como a de Augusto Heleno, não descartamos essa possibilidade. A prisão do general Braga Netto mostrou que ninguém está acima da lei. Ele foi preso por tentar interferir na delação de Mauro Cid e acessar informações sigilosas. Nosso compromisso é com a lei, não com perseguições ou proteções políticas.”
Sobre as emendas parlamentares:
“Essa investigação foi determinada pelo Supremo Tribunal Federal, a partir de denúncias de parlamentares. Embora esteja sob sigilo, é importante não criminalizar de forma antecipada o uso de emendas. Vamos conduzir com serenidade e profundidade. Não vejo razão para reações extremadas, já que seguimos ordens da Suprema Corte.”
Sobre a relação com Arthur Lira e o Congresso:
“Tenho uma relação cordial com o presidente da Câmara, Arthur Lira. Cada instituição cumpre seu papel: ele defende os parlamentares, e eu defendo o cumprimento da lei. Não vejo abalo nas relações institucionais. Em casos como o dos deputados Marcel Van Hattem e Cabo Gilberto Silva, indiciados por ofensas ao delegado Fábio Shor, a imunidade parlamentar não protege a prática de crimes.”
Sobre o indiciamento do ministro Juscelino Filho:
“O inquérito já foi relatado à Justiça. Isso demonstra a autonomia da Polícia Federal, que investiga com isenção, seja quem for o alvo, independentemente de vínculo político. É o que o presidente Lula e o ministro Lewandowski pregam: investigações técnicas e independentes.”
Sobre o relatório complementar e o futuro das investigações:
“O relatório complementar será essencial para consolidar novas evidências e fechar lacunas. A Operação Contragolpe, realizada em novembro, trouxe materiais que ainda estão em análise. Nosso objetivo é entregar à PGR uma base robusta para possíveis novas denúncias. Continuamos atentos para garantir que ninguém, seja militar, político ou civil, fique impune por suas ações ilegais.”
Andrei Rodrigues deixou claro que o compromisso da PF em desvendar todos os detalhes da tentativa de golpe e assegurar que as leis sejam aplicadas de forma imparcial.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

