Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) têm demonstrado crescente incômodo com a pressão de líderes políticos e do mercado financeiro para que ele endosse o nome do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) como seu candidato ao Palácio do Planalto em 2026. Apesar do avanço das investigações e da inelegibilidade já consolidada, bolsonaristas rejeitam qualquer discussão sobre um plano B e se queixam da cobrança por uma definição ainda este ano.
Em entrevista ao portal Leo Dias, Bolsonaro foi categórico ao ser questionado sobre um substituto: “o sucessor sou eu”, declarou. Dias depois, em entrevista à Jovem Pan, reiterou que ainda não escolheu nenhum nome e que só o fará “depois de morto”.
O aliado e ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten, ironizou a campanha de empresários da Faria Lima por Tarcísio, compartilhando nas redes sociais uma publicação que questionava: “Quantos votos a Faria Lima tem para definir um sucessor?”. A manifestação reforça o movimento para manter Bolsonaro como candidato, mesmo diante das incertezas jurídicas.
A insistência do ex-presidente acontece justamente no momento em que líderes políticos começam a estabelecer prazos para a definição de um sucessor. O presidente do PP, Ciro Nogueira, declarou à Folha de S. Paulo que, se o nome for Tarcísio ou Ratinho Júnior (PSD), governador do Paraná, a decisão precisa ser tomada ainda este ano para permitir a organização da campanha. Da mesma forma, o presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), afirmou ao Estadão que o ideal seria que Bolsonaro definisse até dezembro para que o campo da centro-direita possa se estruturar.
Dirigentes partidários temem que Bolsonaro adote a estratégia de Lula em 2018, mantendo sua pré-candidatura até o limite do prazo legal e, na última hora, lance alguém de sua família, como Eduardo Bolsonaro (PL) ou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Partidos de centro-direita já indicaram que não pretendem apoiar uma candidatura com um membro da família Bolsonaro na cabeça de chapa.
A composição considerada mais viável pelo Centrão é Tarcísio como candidato à Presidência e Michelle como vice. Entretanto, bolsonaristas rejeitam a ideia e reafirmam que Michelle será candidata ao Senado pelo Distrito Federal.
Segundo Murilo Hidalgo, da Paraná Pesquisas, essa configuração seria a mais forte eleitoralmente. “Michelle Bolsonaro é o nome mais popular da direita depois de Jair Bolsonaro. Ela representa o bolsonarismo, é mulher e evangélica, enquanto Tarcísio tem grande capacidade de agregar apoio de partidos de centro-direita. Com ele, legendas como MDB e PSD poderiam aderir ao projeto”, explicou.
A mais recente estratégia dos aliados de Bolsonaro para manter viva a esperança de sua candidatura é apostar no cenário internacional como fator de influência sobre o Judiciário brasileiro. Bolsonaristas sustentam que a ofensiva do governo Donald Trump contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pode abrir caminho para uma reviravolta política a favor do ex-presidente.
Liderando essa articulação, Eduardo Bolsonaro tem realizado encontros nos Estados Unidos para denunciar o que considera perseguição judicial ao pai. Ele busca convencer políticos conservadores e aliados de Trump a pressionarem o governo norte-americano a intervir no cenário brasileiro. Entre os pedidos, estão iniciativas para expor uma suposta interferência dos EUA nas eleições de 2022, pressionar pelo direito de Bolsonaro concorrer e responsabilizar autoridades brasileiras por violações contra a democracia.
O movimento provocou reações no Brasil. O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, solicitou à Procuradoria-Geral da República uma investigação contra Eduardo Bolsonaro por crimes contra a soberania e as instituições nacionais. O petista argumenta que o deputado estaria “patrocinando retaliações” contra o Brasil e contra Moraes.
Nos Estados Unidos, uma comissão da Câmara dos Representantes aprovou um projeto de lei que visa barrar a entrada de Alexandre de Moraes no país. O texto prevê que autoridades estrangeiras que atentem contra a liberdade de expressão de cidadãos americanos possam ser impedidas de entrar nos EUA ou deportadas. Embora o nome de Moraes não seja citado, congressistas que assinaram a proposta já manifestaram críticas a decisões do ministro.
No mesmo dia da aprovação, o Departamento de Estado dos EUA condenou o bloqueio de plataformas digitais por ordem do STF, classificando as decisões como censura e afirmando que tais medidas são “incompatíveis com os valores democráticos”. Embora não tenha citado Moraes diretamente, a declaração foi interpretada como uma crítica ao ministro, que determinou a suspensão da plataforma Rumble no Brasil por falta de um representante legal no país. A decisão foi tomada após o canal do blogueiro Allan dos Santos, considerado foragido da Justiça brasileira e atualmente residindo nos EUA, ter sido bloqueado na plataforma.
O Itamaraty reagiu, acusando o governo Trump de politizar decisões judiciais e distorcer as determinações do STF. Segundo nota oficial, o Departamento de Estado estaria interferindo em questões internas do Brasil ao criticar ações tomadas para garantir a aplicação das leis nacionais.
Além disso, Moraes foi processado nos Estados Unidos pela Rumble e pela Trump Media, empresa ligada a Donald Trump, sob a acusação de violar a soberania norte-americana ao ordenar o bloqueio da conta de Allan dos Santos. O caso amplia a tensão diplomática e reforça a narrativa bolsonarista de que a influência internacional pode mudar o destino jurídico do ex-presidente.
Enquanto as articulações seguem, Bolsonaro mantém a retórica de que será candidato, ignorando as pressões internas para que anuncie um substituto. A resistência do ex-presidente continua sendo um obstáculo para a definição do futuro da direita brasileira em 2026, alimentando incertezas tanto dentro do Centrão quanto no mercado político e financeiro.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

