Logo após o Supremo Tribunal Federal aceitar a denúncia contra os primeiros oito envolvidos na tentativa de golpe de Estado que culminou nos atos de 8 de Janeiro, o ex-presidente Jair Bolsonaro iniciou uma nova etapa de sua estratégia política. Em uma entrevista com tom de pronunciamento, que durou quase uma hora, Bolsonaro retomou o discurso inflamado que marcou o fim de seu mandato — justamente o período em que buscava, com a ajuda de assessores e aliados militares, alternativas para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
Durante a fala, Bolsonaro recorreu a argumentos já conhecidos do bolsonarismo. Lançou dúvidas infundadas sobre a segurança das urnas eletrônicas e alegou que “discutir hipóteses de dispositivos constitucionais não é crime”, numa tentativa de justificar reuniões e propostas que, segundo depoimentos de ex-comandantes das Forças Armadas, incluíam a decretação de estado de sítio. Bolsonaro admitiu ter cogitado essa medida, mas recuou por não conseguir apoio dos comandantes militares, que resistiram à ideia de manter o ex-presidente no poder pela força.
Essa admissão, embora juridicamente possa reforçar a acusação de tentativa de golpe, politicamente alimenta a tese, já disseminada entre seus apoiadores, de que Bolsonaro está sendo injustamente perseguido pela Justiça. Nesse sentido, a reação do ex-presidente revela a aposta em transformar o processo criminal em trunfo eleitoral e político.
O ambiente jurídico, por sua vez, é tratado pelos aliados como um terreno hostil e praticamente perdido. Apesar dos altos investimentos em renomados criminalistas, o grupo mais próximo a Bolsonaro avalia que as chances de reversão judicial são mínimas sem forte pressão política. Por isso, o foco está na criação de uma narrativa que fortaleça a mobilização pública e gere empatia — dentro e fora da base bolsonarista.
Um exemplo central dessa estratégia é o caso da cabeleireira Débora Santos, presa desde 2023 por envolvimento nos atos golpistas. Ela foi acusada de pichar com batom a estátua da Justiça, em frente ao STF, com a frase “Perdeu, Mané”. Alexandre de Moraes votou por sua condenação a 14 anos de prisão, mas o ministro Luiz Fux pediu vista, abrindo a possibilidade de revisão da pena. A figura de Débora, mãe de duas crianças pequenas, foi adotada como símbolo da injustiça judicial pelos bolsonaristas. Sua história comove até setores moderados da sociedade, para além do núcleo mais radical.
A defesa pública de Débora será também um dos eixos centrais da manifestação que ocorrerá na Avenida Paulista, em 6 de abril. O objetivo da mobilização é reagrupar as forças da direita após o esvaziado evento de Copacabana. A expectativa dos organizadores é usar o impulso da manifestação para pressionar pela votação do projeto de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro.
Paralelamente, o bolsonarismo prepara uma ofensiva institucional para manter o tema em evidência. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara será usada como palco para ouvir aliados do ex-presidente Donald Trump e reforçar a tese de que plataformas digitais teriam influenciado de maneira indevida o processo eleitoral brasileiro — numa tentativa de replicar, em moldes nacionais, a narrativa de fraude que animou parte do eleitorado republicano nos Estados Unidos.
A meta é sustentar politicamente a ideia de que Bolsonaro é alvo de perseguição, criando um ambiente favorável para que o projeto de anistia avance, ao menos para os chamados “presos comuns” do 8 de Janeiro. Só depois disso, e com o cenário mais consolidado, os aliados cogitam apresentar um segundo projeto, visando anistiar o próprio Bolsonaro.
O sucesso dessa estratégia está longe de ser garantido. O governo Lula continuará disputando espaço na opinião pública com pautas populares, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, além da nova ofensiva de comunicação coordenada pelo marqueteiro Sidônio Palmeira. Do outro lado, o STF permanece firme em sua condução, com ministros convencidos da culpa do ex-presidente e pouco inclinados a suavizar o tom das decisões.
Inspirado no exemplo de Donald Trump, que conseguiu manter sua influência política mesmo sob múltiplas investigações, Bolsonaro tenta se manter no centro do noticiário — mesmo que sob acusações graves. Seu cálculo é simples: ser lembrado, ainda que negativamente, é melhor do que cair no esquecimento. E, para ele, não há mais outro caminho a seguir.
Foto: Lula Marques/Agência Brasil

