Em uma decisão com forte impacto político em Pernambuco, a cúpula nacional do PSDB realizou uma intervenção no diretório estadual do partido, destituindo a influência da governadora Raquel Lyra e entregando o comando ao presidente da Assembleia Legislativa, Álvaro Porto. A medida é interpretada como uma retaliação direta à governadora, que deixou o PSDB no dia 10 de março para se filiar ao PSD, após meses de articulação com o partido presidido por Gilberto Kassab.
A escolha de Álvaro Porto para liderar o PSDB em Pernambuco evidencia um reposicionamento da legenda no estado. Porto é desafeto declarado de Raquel e aliado próximo do prefeito do Recife, João Campos (PSB), possível adversário da governadora nas eleições estaduais de 2026. A nomeação é vista como um movimento estratégico para alinhar o partido a um novo polo político, afastando-o da influência do Palácio do Campo das Princesas.
A intervenção frustrou os planos da governadora de manter o PSDB como aliado em 2026, mesmo após sua saída formal da sigla. Um dia antes de se desfiliar, Raquel articulou a filiação da vice-governadora Priscila Krause ao partido, movimento que pretendia garantir controle informal sobre o diretório estadual. No entanto, com a mudança de rumos imposta pela Executiva Nacional do PSDB, Priscila anunciou sua desfiliação nesta quinta-feira (4), menos de um mês após entrar no partido.
Em protesto, os 32 prefeitos filiados ao PSDB em Pernambuco também anunciaram sua saída da legenda. Entre eles está Rodrigo Pinheiro, prefeito de Caruaru e sucessor de Raquel Lyra no cargo. A expectativa é que tanto ele quanto os demais migrem para o PSD, reforçando a nova sigla da governadora. O PSD já conta com mais de 20 prefeitos filiados no estado.
A vice-governadora criticou a decisão da cúpula tucana: “A decisão do PSDB nacional de intervir no diretório de PE é um ato que não dialoga com a democracia, que marcou a história da sigla”, escreveu em suas redes sociais.
Marconi Perillo, presidente nacional do PSDB, minimizou os efeitos da debandada e defendeu a nomeação de Álvaro Porto. Segundo ele, o partido buscava uma liderança comprometida com a formação de chapas proporcionais competitivas, principalmente para a Câmara dos Deputados. “Foi uma decisão política. Já era esperado e foi calculado”, afirmou Perillo.
Um dos objetivos da nova direção é viabilizar a candidatura de Gabriel Porto, filho de Álvaro, a deputado federal. A aposta da legenda é reconstruir sua bancada federal, buscando maior protagonismo no cenário político nacional.
Apesar da justificativa estratégica, dirigentes da Executiva Nacional, em conversas reservadas, expressaram ressentimento com Raquel Lyra. Eles consideram que a governadora agiu com ingratidão ao deixar a sigla que a acolheu em 2016, após sua saída do PSB. Naquele ano, o PSDB viabilizou sua candidatura à prefeitura de Caruaru, início de sua projeção estadual.
Outro ponto de atrito foi a tentativa de Raquel de influenciar o PSDB por meio da filiação de Priscila Krause, sem o conhecimento prévio da cúpula partidária. A manobra foi vista como uma afronta à autonomia da legenda e contribuiu para a decisão da intervenção.
Álvaro Porto terá agora um prazo de seis meses para organizar novas eleições internas do PSDB em Pernambuco. Inicialmente apoiador de Raquel Lyra nas eleições de 2022, o deputado rompeu com a governadora no ano seguinte, assumindo uma postura crítica e independente no comando do Legislativo estadual.
Desde sua chegada à presidência da Assembleia, Porto tem pautado votações que contrariam os interesses do Executivo, o que acirrou o embate político. Entre os temas mais sensíveis, está a proposta de emenda à Constituição estadual que prevê o aumento imediato das emendas parlamentares de execução obrigatória, as chamadas emendas impositivas, de 0,8% para 2% da receita corrente líquida do estado. A medida, se aprovada, reduzirá a margem de manobra do governo para definir a aplicação dos recursos.
Além disso, Álvaro Porto deve ingressar com uma ação na Justiça nos próximos dias contra o governo estadual, cobrando o pagamento de R$ 97 milhões em emendas parlamentares atrasadas referentes a 2024, de um total de R$ 188 milhões.
A relação conturbada entre Porto e Raquel ganhou maior repercussão em fevereiro deste ano, quando um áudio vazado durante sessão conjunta da Assembleia revelou críticas duras do deputado à governadora. Na ocasião, o PSDB nacional chegou a classificar as falas como “agressivas”, mas agora as tensões se consolidaram institucionalmente com a sua nomeação.
Nos bastidores, a tendência é que o PSDB, sob a liderança de Álvaro Porto, se alinhe formalmente à candidatura de João Campos ao governo estadual, em uma aliança que deve remodelar o equilíbrio político em Pernambuco para as eleições de 2026.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agênci

