O general da reserva Júlio Cesar Arruda, ex-comandante do Exército, negou nesta quinta-feira (22) ter impedido as prisões dos manifestantes que ocupavam o acampamento em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O local era considerado um dos principais focos da mobilização que resultou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. Em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF), Arruda afirmou que sua atuação teve como objetivo “acalmar” a situação, e que a ação de retirada dos golpistas deveria ser feita de maneira “coordenada”.
“Ali estava um clima de nervosismo. A minha função era acalmar. Então eu falei: isso aí tem que ser feito de maneira coordenada. Vamos fazer isso de forma coordenada. E foi feita de forma coordenada”, declarou o ex-comandante.
Na noite do dia 8, o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão de todos os presentes no acampamento. A ordem, no entanto, só foi cumprida na manhã do dia seguinte. Na ocasião, tanques do Exército foram posicionados para bloquear a entrada da Polícia Militar no local.
Segundo Arruda, a postergação da operação foi uma decisão prudente: “Minha função ali foi acalmar, porque até então, e graças a Deus, não houve nenhuma morte. Da forma como seria feita ali poderia haver alguma”.
O depoimento ocorreu durante audiência no processo que investiga a tentativa de golpe de Estado. Arruda foi convocado como testemunha de defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do tenente-coronel Mauro Cid. Questionado por Moraes sobre suposta declaração de que o Exército impediria a ação da polícia por ter maior efetivo, Arruda afirmou: “Não me lembro, não, senhor. Não me lembro”.
Essa não foi a única vez que Arruda alegou não lembrar de fatos questionados. Em ao menos outras três situações, ele respondeu com a mesma negativa, inclusive quando perguntado sobre eventual conversa com o general Estevam Theophilo sobre uma possível prisão de Mauro Cid.
Relatou ainda que foi informado pelo então comandante militar do Planalto, general Gustavo Henrique Dutra, de que a Polícia Militar se dirigia ao QG para prender os manifestantes. Arruda teria respondido que a medida deveria ser coordenada com as autoridades federais.
“O general Dutra me ligou e falou: ‘General, a polícia está vindo aqui atrás e eu tenho informação que eles vão prender todo mundo’. Aí eu falei: ‘Não, isso aí tem que ser coordenado. Encontra lá o interventor e vamos coordenar isso aí’.”
Arruda afirmou que ministros do governo Lula participaram das decisões sobre a operação: Rui Costa (Casa Civil), Flávio Dino (então ministro da Justiça, hoje no STF) e José Múcio Monteiro (Defesa). “As ações passaram a ser coordenadas por esses três ministros, comigo e com o general Dutra. Sentamos em uma sala e acertamos como deveria ser feito”, declarou.
Ao ser questionado sobre os motivos de sua exoneração do cargo de comandante do Exército, Arruda respondeu que desconhece as razões da decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o demitiu no dia 21 de janeiro, apenas três semanas após assumir o cargo. “Vou ser sincero com o senhor, não sei. Essa pergunta acho que não cabe a mim. Tem que ser feita a quem me nomeou e quem me exonerou”, disse.
Para ele, a troca no comando é prerrogativa exclusiva do chefe do Executivo. “É atribuição do presidente. Ele nomeia e desnomeia quem ele quiser”, resumiu.
Um dos fatores apontados como motivadores da exoneração de Arruda foi sua resistência em cancelar a nomeação do tenente-coronel Mauro Cid para o comando do 1º Batalhão de Ações e Comandos, unidade de elite sediada em Goiânia. A designação havia sido feita em maio de 2022, ainda na gestão do general Marco Antônio Freire Gomes. Arruda confirmou a origem da nomeação, mas não esclareceu se chegou a ser pressionado a revê-la.
Arruda também contou ter visitado Mauro Cid durante sua prisão preventiva, em 2023. “Eu visitei o tenente-coronel Cid quando ele estava preso lá no Batalhão de Polícia do Exército, em Brasília. Estava morando ainda em Brasília, então visitei. E tenho mantido contato com o pai dele, o general Cid, aqui no Rio de Janeiro. A gente conversa sobre diversos assuntos.”
O general da reserva disse ainda que recebeu no fim de 2022 a visita do também general da reserva Mário Fernandes, apontado como um dos integrantes do “núcleo 2” da organização golpista investigada pelo STF. Fernandes é acusado de ter elaborado o documento conhecido como “Punha Verde e Amarelo”, que previa a eliminação física de autoridades, incluindo o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
Arruda negou que o visitante tenha feito qualquer defesa de golpe: “Ele foi lá me visitar, nós conversamos sobre diversos assuntos e eu disse para ele que ia assumir o comando no dia 30. E ia dar continuidade ao trabalho que o general Freire Gomes vinha fazendo”.
O depoimento de Arruda reforça a estratégia de defesa de Bolsonaro e seus aliados de deslegitimar a ideia de omissão ou conivência com os atos de 8 de janeiro. No entanto, o contraste entre suas falas e os registros oficiais continua a alimentar a polêmica sobre a atuação das Forças Armadas no episódio que marcou a tentativa de ruptura institucional no país.
Foto: Alan Santos/Presidência

