Quem esperava um embate direto entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes durante o depoimento no julgamento da trama golpista saiu frustrado. Também se decepcionaram os que aguardavam algum argumento novo ou reviravolta capaz de mudar o curso do caso.
Durante a sessão, tanto Bolsonaro quanto o relator da ação penal, Moraes, demonstraram um esforço claro para evitar qualquer situação que pudesse futuramente alimentar alegações de cerceamento de defesa ou de desrespeito institucional. Longe da postura beligerante que cultivou durante seu governo, Bolsonaro mostrou-se cordial e até brincalhão. Em tom descontraído, chegou a “convidar” Moraes para ser seu vice.
Do outro lado, Moraes conduziu a sessão com serenidade e bom humor, inclusive rindo de si mesmo e dos ataques que recebe nas redes sociais. Permitindo que Bolsonaro falasse livremente, interveio apenas para vetar a apresentação de vídeos preparados pela defesa do ex-presidente, por não serem compatíveis com o rito da audiência.
Para quem esperava uma postura mais agressiva, talvez tenha faltado compreender que aquele não era um momento para confrontos. O depoimento serve para o réu apresentar sua versão, podendo inclusive optar pelo silêncio ou distorcer os fatos, sem que o relator o contradiga formalmente.
Ainda assim, considerando o histórico de antagonismo entre os dois, chamou atenção a cordialidade que marcou o encontro. Moraes quebrou esse tom em poucos momentos, como quando Bolsonaro voltou a citar a investigação da Polícia Federal sobre o ataque hacker ao Tribunal Superior Eleitoral em 2018. O ministro esclareceu que tal inquérito não tem relação com a segurança das urnas eletrônicas, desmentindo uma narrativa recorrente do ex-presidente.
No conteúdo, o depoimento trouxe pouco de novo. Durante mais de duas horas, Bolsonaro reiterou versões já conhecidas e refutadas, como a alegação de que encontros com comandantes militares teriam tido apenas o objetivo de explorar, dentro da legalidade, formas de questionar o resultado da eleição de 2022. Ele afirmou que, ao perceber que não havia alternativas viáveis, teria desistido.
Essa narrativa, porém, contrasta com o relato do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Segundo Cid, o ex-presidente teria revisado um documento que planejava medidas para reverter o resultado eleitoral. Além disso, chefes das Forças Armadas confirmaram que propostas golpistas foram discutidas em mais de uma reunião no Palácio da Alvorada.
Bolsonaro evitou comentar essas contradições durante o depoimento e não foi provocado a fazê-lo. Assim, algumas das principais lacunas da trama golpista seguiram sem esclarecimento.
Em sua fala, o ex-presidente optou por minimizar ações e declarações anteriores, atribuindo eventuais excessos a formas “desajeitadas” de expressão. Foi o caso de ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal em reuniões com aliados.
A sessão também contou com momentos inusitados, como a intervenção do advogado de defesa de Augusto Heleno, preocupado com o horário do jantar e do lanche matinal, que acabou oferecendo um breve alívio cômico.
Foto: Fellipe Sampaio/STF

