As ações em curso para recuperar a Bacia do Rio Doce — que atravessa os estados de Minas Gerais e Espírito Santo — podem ser ineficazes a longo prazo se não incorporarem os impactos previstos das mudanças climáticas. O alerta consta na pesquisa Adaptive Restoration Planning to Enhance Water Security in a Changing Climate, desenvolvida no Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (LECE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e publicada na revista científica internacional Ambio em abril de 2025.

O estudo, realizado durante o mestrado do biólogo Luiz Conrado Silva, utilizou a metodologia de Avaliação Integrada de Serviços Ecossistêmicos (InVEST), da Universidade de Stanford, para analisar como a restauração da vegetação nativa prevista pela Lei de Proteção à Vegetação Nativa (LPVN/2012) pode influenciar a qualidade da água na região diante de cenários climáticos projetados para 2070. A orientação foi da professora Aliny Pires, do Departamento de Ecologia da Uerj.

A pesquisa indica que o sucesso das iniciativas de restauração depende diretamente do reconhecimento dos efeitos do clima sobre a erosão nas margens da bacia. A exportação de sedimentos para os cursos d’água, agravada pelas mudanças climáticas, pode comprometer a segurança hídrica de cerca de 2,2 milhões de pessoas que dependem da bacia. Diante disso, os autores recomendam a adaptação das prioridades ecológicas, a fim de mitigar o transporte de sedimentos e preservar a qualidade da água.

O desastre causado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), completa dez anos em 2025. Na ocasião, cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram lançados na bacia, provocando danos irreversíveis ao meio ambiente e à vida de 19 pessoas. Em 2019, a tragédia de Brumadinho (MG) agravou o cenário, ampliando a necessidade de ações efetivas de restauração ecológica e controle da degradação ambiental.

A pesquisa avaliou os efeitos de diferentes níveis de restauração ecológica sobre a qualidade da água na bacia e demonstrou que os benefícios podem ser significativamente comprometidos se os cenários climáticos não forem considerados. Para a professora Aliny Pires, é fundamental priorizar a recuperação de áreas degradadas na porção alta da bacia e conservar os trechos ainda preservados, muitas vezes negligenciados pelas políticas de recuperação.

“Duas coisas a gente acha fundamentais: restaurar as áreas degradadas da porção alta da Bacia do Rio Doce e conservar as áreas que estão presentes dentro dela”, afirmou a professora em entrevista à Agência Brasil.

Aliny destaca que algumas iniciativas em curso, como a criação de unidades de conservação na porção alta do rio, são positivas. No entanto, é preciso garantir que a vegetação nativa ali existente não seja suprimida. Segundo ela, o estudo fornece subsídios para decisões estratégicas que assegurem a manutenção da qualidade da água em toda a extensão da bacia.

O levantamento mostrou que, nos cenários climáticos analisados, a exportação de sedimentos pode crescer expressivamente: 500 mil toneladas por ano na sub-bacia do rio Santo Antônio, 345 mil toneladas na do Piracicaba e 140 mil toneladas na do Piranga. Esse aumento coloca em risco a segurança hídrica de comunidades locais e de regiões ao longo de todo o curso do Rio Doce.

Por outro lado, a restauração das margens dos rios pode reduzir em até 90% a quantidade de sedimentos exportados, promovendo melhorias substanciais na qualidade da água. No entanto, os autores alertam que, em áreas mais críticas, como na sub-bacia do Santo Antônio, as intervenções previstas pela LPVN são insuficientes. Será necessário ampliar significativamente o escopo das ações para além das zonas ripárias, alcançando áreas mais amplas de transição entre os ambientes terrestres e aquáticos.

“Nossos resultados mostraram que, com a mudança do clima, a gente prevê um aumento grande na precipitação na porção alta da Bacia do Rio Doce. Mesmo sendo menos degradada, a pressão sobre essas áreas aumentará, causando o escoamento de uma grande quantidade de sedimentos para dentro do rio. Isso compromete toda a qualidade da água da bacia”, explica Aliny.

O estudo também revelou que a definição de áreas prioritárias para restauração varia de acordo com o cenário climático. Em cinco das oito sub-bacias analisadas, os locais considerados estratégicos mudaram a depender das projeções, o que evidencia a necessidade de incluir dados climáticos nas decisões sobre onde e como restaurar os ecossistemas.

Luiz Conrado, autor da pesquisa, desenvolveu o trabalho entre março de 2024 e fevereiro de 2025. Atualmente doutorando na mesma área, ele afirmou que a escolha da Bacia do Rio Doce se deu pela complexidade e relevância ecológica do território. Seu objetivo era unir ciência e impacto social por meio da restauração ecológica, área pela qual sempre teve interesse.

“Fazia muito sentido, no contexto da Bacia do Rio Doce, incorporar também uma avaliação climática para achar sinais de restauração e ver como as coisas estavam funcionando espacialmente,” afirmou Luiz Conrado.

Sua motivação foi desenvolver um projeto capaz de contribuir de maneira efetiva com a vida das pessoas. “Acho que, no contexto social de degradação que a gente vive, esse é o caminho que eu enxergo de aplicar alguma mudança. Entender como a restauração acontece, pesquisar formas mais eficientes de ela acontecer, pensar em estratégias novas para a mitigação de impacto e para recuperação de áreas degradadas”, afirmou o biólogo.

Para a professora Aliny, o estudo não representa uma crítica direta às iniciativas em andamento, mas sim uma proposta de aprimoramento das ações já existentes. “Não é esse o ponto, não tem nada sendo feito de errado. Mas, talvez, a gente esteja começando pelo lugar que traz menos benefícios no futuro”, explicou.

A expectativa é que os resultados do estudo sirvam de modelo para outras regiões em situação semelhante. A metodologia aplicada permite identificar áreas prioritárias para restauração a partir da combinação entre serviços ecossistêmicos — como a manutenção da qualidade da água — e os impactos projetados das mudanças climáticas.

“Quando a gente decide que um serviço ecossistêmico tem um papel-chave dentro de um contexto de recuperação de um ecossistema, a gente pode incorporar o impacto das mudanças climáticas na provisão desses serviços e entender como diferentes cenários de restauração podem ser mais ou menos efetivos nesses diferentes contextos climáticos”, explicou Aliny.

Segundo ela, o protocolo utilizado na pesquisa pode ser replicado em outras regiões com bacias hidrográficas degradadas ou sob pressão, e adaptado de acordo com os principais serviços ecossistêmicos de interesse. “A gente entende que esse nosso esforço não se restringe à Bacia do Rio Doce, mas apresenta um protocolo que pode ser replicado e aplicado em diferentes contextos”, afirmou.

A equipe do estudo pretende agora apresentar os resultados aos gestores públicos e às entidades diretamente envolvidas na reparação da Bacia do Rio Doce. O objetivo é garantir que as conclusões sejam incorporadas aos processos de tomada de decisão sobre o futuro da região.

“Estamos em uma missão de mobilizar todos os atores envolvidos com esta discussão para que essa informação atinja pesquisadores, responsáveis nas mineradoras, o ICMBio, os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, para que isso faça sentido e possa ser incorporado”, concluiu Aliny.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil


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